quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Xidiminguana Contesta a Marrabenta.

Permanece a dúvida e a polémica que envolve a “velha guarda” em relação ao criador e à origem do ritmo musical marrabenta. Fanny Mfumo é tido como rei da marrabenta, Dilon Ndjindji auto-proclama-se dono deste estilo musical que, segundo argumenta, foi por ele criado no distrito de Marracuene. Depois de Alberto Mhula – o Manjacaziano –, hoje é Xidiminguana e Alberto Mutxeca que vêm desmentir a tese de Dilon Djindji e justificam: “A marrabenta é do povo (...) perguntar quem criou a marrabenta é o mesmo que perguntar quem começou a cultivar a terra em Moçambique, certamente que a resposta sempre se vai esconder”.

Xidiminguana e Alberto Mutcheca procuram chamar à verdade defendendo que o povo é quem criou a marrabenta. “A marrabenta é do povo... perguntar quem criou a marrabenta é mesmo que perguntar quem começou a cultivar a terra em Moçambique, certamente que a resposta sempre vai se esconder”.

Xidiminguana, que começou a gravar em 1974 (naquela altura na Rádio Clube de Moçambique), afirma que se tenta criar um certo protagonismo quando certos músicos – sem adiantar nomes – dizem que são os fundadores da marrabenta.

Xidiminguana, que diz ter chegado a Maputo – na altura cidade de Lourenço Marques – no dia 3 de Agosto de 1954, pede para que se pare de procurar protagonismo por algo que é do povo, porque “não existe quem criou a marrabenta”.
Contou ainda que em tempos atrás a marrabenta era cantada e dançada sem viola, envolvendo raparigas. E depois é que se começou a desenvolver o ritmo com violas feitas em casa. “Começámos a cantar a marrabenta com violas inventadas em casa com latas de cinco litros, aprendi com essas violas”, disse Xidiminguana, um dos mais conceituados cantores nacionais.

Uma contradição
Contrariamente ao que disse Alberto Mula, que Feliciano Muntano foi o precursor de marrabenta, Alberto Mutcheca e Xidiminguana explicaram que Feliciano Muntano apenas foi o primeiro músico a gravar marrabenta em fitas magnéticas, em 1950, no distrito de Chibuto, província de Gaza. Nessa altura usavam-se mais gramofones que eram oferecidos pelos bóeres sul-africanos que vinham visitar o país. “No regresso ofereciam-nos às pessoas”.

Xidiminguana disse ainda que, depois surgiu o Magana gana, do distrito de Homoine, província de Inhambane, que tocava bandolim com Francisco Mahecuane e Alberto Langa.
Por seu turno, Alberto Mutcheca acrescentou que vieram depois o Eusébio João Tamele, Gabriel Mutemba e Alfredo Mulhovo. “Nessa altura nós ouvíamos as músicas deles e isso é o que nos fez continuar a fazer a marrabenta, influenciaram-nos com as suas boas musicas”.

“Agora, porque essas pessoas já não existem, alguns indivíduos tentam criar protagonismo em volta da marrabenta, ignorando os primeiros tocadores. Eu assumo o discurso e digo que eles não estão a agir de boas maneiras quando fazem isso... Por exemplo, eu não toco mais do que ninguém. Aprecio e gosto da nova geração porque acho que eles têm de tocar o que aprenderam dos mais velhos para nós podermos ficar satisfeitos, mostram um certo reconhecimento. Que toquem o seu estilo de forma convincente”.

Por que Fanny Fumo é o rei?
“... digo-vos que cada músico tenta gabar-se, ele gabava-se não porque tocava mais do que os outros, digo isso com muito respeito. Não foi o Fanny que começou a tocar, nem tão pouco”, clarificou Xidiminguana.
Para Xidiminguana, Dilon Djindji promoveu a marrabenta de Marracuene, “não é que ele toca mais do que ninguém”, explicou o músico.

As violas vieram da África do Sul...
À semelhança do que Xidiminguana diz, Alberto Mutcheca afirma que as violas naquela altura vinham da África do Sul onde as adquiriam quando, em alguns momentos, iam trabalhar, alguns pediam aos amigos que trabalhavam lá para comprar.
Tal como Fanny Mfumo, Dilon Djindji, também trabalhou na África do Sul, daí a razão de, numa das suas músicas relatar o facto de ter viajado para a terra do rande e quando regressa a Maputo, percebeu que outros homens haviam lhe arrancado a sua namorada. Diz num dos trechos dessa música que“Dilon vá mutekele Podina... Ka Marracuene vá nitekele Podina... (Dilon levaram-lhe a Podina...em Marracuene levaram-me a Podina)”.
Xidiminguana revela que teve a sua primeira viola graças a um amigo, que já faleceu, que trabalhava na África do Sul, em 1957. “Ele ofereceu-me a viola que me fez continuar a tocar até hoje”.

Afinal o que significa marrabenta?
Quando questionados sobre o significado da marrabenta, Xidiminguana e Alberto Mutcheca disseram que a marrabenta era uma grande brincadeira que se fazia naquela altura... onde os jovens pediam-se em namoro. “Era uma coisa muito bonita”.

Ensinámos marongas a cantar marrabenta...
Explicando como a marrabenta chegou a Lourenço Marques, Xidiminguana foi peremptório ao afirmar que foram eles que vieram a Lourenço Marques para ensinar a marrabenta aos marongas. E Perguntou: “quem é o maronga que tu conheces que tem um disco de marrabenta melhor que dos machanganas? ... nem machopes. Os bitongas pelo menos têm um, que é Félix Moía. Félix Moía é o único que vejo naquele ponto do país, ele é um espectáculo, gosto muito dele”.

Em torno da polémica, Xidiminguana afirma que se distancia desses protagonismo que certos colegas têm exibido. “Eu não tenho nada contra essas pessoas, mas eles têm de saber que o que fazem não está certo... a marrabenta nunca esteve com ninguém. Não acredito nessas afirmações, faço as minhas músicas para oferecer ao povo moçambicano, não sou melhor que ninguém e nem quero ser”.

Fonte: Jornal O Pais Online por Edson Muianga

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Saldicos

O espectáculo de sexta feira anoite no pavilhão do Benfica resumiu-se em autentico show de musica com Neyma, Garimpeiros, Saldicos, a banda tradicional Monte Namuli e o próprio Arcénio a proporcionarem aos espectadores ambientes de gala e euforia.

A única desavença foi o atraso observado na efectivação do Show, algo que inquietou aos espectadores, aliais foi este o motivo que levou um grupo de espectadores a trocarem mimos com alguns elementos da policia da Republica de Moçambique escalados para garantirem segurança e tranquilidade no local.

O espectáculo inicialmente marcado para as 20h aconteceu quarto horas mais tarde, numa altura em que os citadinos presentes na ocasião preparavam-se para abandonar aquele recinto o único com a capacidade de acolher espectáculos de envergadura em Quelimane. Depois dos garimpeiros e os Saldicos foi a vez desta convidada de honra “Neyma” arrasar tudo e com todos quanto estiveram presentes, foram três sucessos seus que obrigaram os seus fãs a se introduzirem no pavilhão de modo a delirar com aquela “shangana” que da outra vez saiu de Quelimane com más recordações.

Devia ser duas horas e alguns minutos altura em que Arcénio a jeito de chave de ouro ascendeu ao palco para fechar o espectáculo, nesta mesma altura os espectadores já abandonavam o recinto com alguma felicidade, embora impacientes com o atraso. O mentor do disco “Djay” Arcénio, mostrou-se surpreso ao se aperceber que o publico já abandonava o local, dando impressão, que de Arcénio nada lhes interessava.

Ney um dos elementos dos garimpeiros apelou na ocasião aos Quelimanenses para continuarem a mostrar interesse nos espectáculos promovidos por músicos nativos, como o de Arcénio, o pavilhão de Benfica registou esta sexta feira uma aderência rara em espectáculos daquela natureza, estavam no local mais de 3 mil espectadores. Alguns espectadores disseram ao DZ que a desorganização na realização dos espectáculos desmotiva os espectadores que na sua maioria levam para o local a vontade de assistir de imediato a festa.

Apesar deste e outro problema o músico Zambeziano radicado na França Arcénio disse, ter se sentido satisfeito com a moldura humana que presenciou o espectáculo de sexta feira anoite. Arcénio disse acreditar que o disco terá sucessos no mercado Zambeziano.

Fonte : Jornal zambezia Online Por Hamilton António.

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Fany Mfumo Comecou Assim...


O tempo passou meteoricamente. Estavamos em 1947.
Fany Mfumo (Fernando de nome próprio), com dezasete anos, decide comecar uma aventura. A pé, levando consigo apenas o sonho de se tornar artista, ruma para a Africa do Sul. Uma vez lá, tornou-se animador dos “compounds” onde residiam os magaízas (mineiro Moçambicanos e de outros países da região) que lá procuravam melhores condições de vida nas minas de ouro, sonhando com suas familias em suas pàtrias longínquas.

Fany Mfumo adequeriu sua primeira guitarra de fábrica.
Um produtor branco da companhia discográfica “His Master Voice” que procurava regularmente por talentos entre os mineiros, “descobre e contrata Fanyto”.

Quando o seu primeiro disco chegou a Lourenço Marques, os chiphefos (candeeiros rudimentares à petrólio) ficaram acessos a noite toda, desafiando a escuridão para ouvir aquele miúdo que cantava e tocava maningue bem… As agulhas dos gramafones esgotaram-se antes que as pessoas conseguissem extravagar suas tristezas e sonhos.

Georogina, U Xonguile Njany (Georogina, ès tão bela) e muitos outros temas , passaram a animar as festas e sessões de libação em Lourenço Marques e outras cidades de Moçambique.

Em 1955, Fanyto assenhora-se, inicialmente no espaco musical do programa radiofónico experimental especialmente dirigido a população negra. Daí, o monstro da marrabenta nunca mais parou.

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Elsa Mangue de Volta aos Palcos.


O desejo da cantora Elsa Mangue de voltar aos palcos depois de refeita de uma doença com que se encontrava a braços há vários meses vai materializar-se no sábado. A popular intérprete de música moçambicana foi convidada pelos gestores de um espaço musical no bairro da Liberdade (Nézia) para apresentar-se aos fãs.

Elsa Mangue não realiza um concerto há mais de três anos, em parte devido à doença que a apoquentou. Chegou a estar entre a vida e a morte, mas sempre esperançosa em, “pelo menos um dia antes da minha partida”, voltar a palmilhar os mesmos palcos que a catapultaram para o estrelato no panorama musical nacional. A primeira oportunidade é esta, num palco pequeno, mas que poderá servir de alavanca para a devolver aos grandes recintos onde ela brilhou. O conjunto Central Line, que muitas vezes a acompanhou em memoráveis espectáculos em que participou, sobretudo em Maputo, volta a desempenhar um papel de referência nesta etapa desta cantora: vai apadrinhar este regresso.

Numa recente entrevista ao “Notícias”, Elsa Mangue, que depois de passar pelo pior se apresentava como uma mulher de vontade e de força, recordou os tempos abismais por que passou nos seguintes termos: “foi uma etapa negra e longa, em que lutei contra a morte e pela vida. Hoje estou aqui, de volta aos bons dias e pronta para tudo”.

O longo calvário por que passou Elsa Mangue foi testemunhado de perto por algumas colegas e outras pessoas de boa vontade que a auxiliaram com tudo quanto ela necessitasse para que a vida lhe voltasse a sorrir. E, num momento em que dos maus tempos restam apenas “lembranças para apagar”, a compositora e intérprete de música moçambicana não se esquece de as agradecer.

O projecto de regresso aos palcos de Elsa Mangue é norteado pelo desejo de promover o disco “Muguanda”, editado pela Vidisco quando ela se encontrava doente. Entrara em estúdio para gravar temas para esse álbum, do qual foi retirado um tema para concorrer aos prémios da edição passada do “Top Ngoma”. No concerto de sábado vai, certamente, apresentar temas constantes do disco e outros com que se fez famosa ao longo da sua carreira.

Elsa Mangue é uma artista que cimentou a sua grandeza na música moçambicana nos anos 1980, muito à custa das canções que interpretou inspirada no Moçambique social. Porque tinha referências na música moçambicana, interpretou o tema “Tindjombo”, de um dos seus ídolos, Fany Mpfumo. Essa canção está inserida numa colectânea em homenagem ao “Rei da Marrabenta”, em que também contribuíram, entre outros, Neyma, João Paulo, Nanando, Miranda e Ancha.

Fonte: 28 de Fevereiro de 2008:: Jornal Notícias

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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Zac Nhassavele

DEPOIS de viver 18 anos na Itália, voltou às raízes. Para lutar pelos mesmos objectivos que sempre nortearam a sua vida. Separou-se da mulher, que ficou por lá. Deixou um filho, que hoje tem 21 anos e que ama muito o pai, ao ponto de mandá-lo chamar, quando soube que Nhassavele enfrentava dificuldades para dar continuidade aos seus projectos em Moçambique. Porém, Zac preferiu entrar por outro lado: foi para África do Sul, juntar-se ao irmão, o Benjamim. Lá gravou um disco que o intitulou “Thsinela”. Vem pelo menos uma vez por mês a Moçambique. Aliás, foi numa dessas estadas no nosso país que conversamos com ele, tendo nos pedido que disséssemos a toda a gente que o seu nome não é Isac Nhassavele, mas sim Zac Nhassavele. Isac foi uma corruptela do apresentador Izidine Faquirá, num dos programas do Ngoma Moçambique em que participou com “Na KuRandza”.
E o seu maior sonho é gravar, um dia, um disco com os seus irmãos: Benjamim, Tomás e Filipe.
Zac Nhassavele será sempre lembrando pelo fulminante video-clip “NaKu Randza”, gravado na Itália, numa arena onde se produzem filmes de acção. É um tema com uma base de marrabenta, e que se move levemente, quase de forma subtil, entre o funk e o regae. É uma obra que vai ainda ganhar outra dimensão, se percebermos que maior parte dos participantes que a dão corpo, são actores de cinema, com excepção dos elementos da banda que acompanha o nosso compatriota.
Zac Nhassavele, actualmente a viver em Joanesburgo, na África do Sul, considera a marrabenta como sendo um elemento que dá um valioso sopro à vida. Ele conseguiu, com este ritmo, aglutinar no seu conjunto, que fez várias digressões pela Itália e por outros países da Europa, cidadãos brasileiros, senegaleses, nigerianos, para além dos próprios italianos. Até porque o nome do seu grupo, enquanto vivia naquele país transalpino, chamava-se Marrabenta, em homenagem ao próprio ritmo. Era uma coisa nova naquele canto do mundo.
Foram dez anos de intenso trabalho na Itália, cometendo a proeza de manter os mesmos elementos por cerca de dez anos. Mas Nhassavele ficou naquele território europeu por mais de 10 anos: viveu lá de 1983 a 2001, no meio de muito trabalho. Casou-se e separou-se. Teve um filho hoje com 21 anos, o qual continua a viver na Europa. “Por acaso o meu filho seguiu, de certa forma, as minhas peugadas artísticas. Ele canta muito bem, para além de que tem uma formação em Informática”.
Mas para além de Filipe Nhassavele ter influenciado o seu filho na música e ter levado um ritmo novo para a Itália, onde ensinou muita gente, cantou blues e jazz. “Não foi fácil penetrar nos meandros socioculturais da Itália, entretanto quando eles – os brancos - vêem um negro a cantar, aproximam-se”.
Sobre se o nosso compatriota teve algumas dificuldades de comunicação durante a sua estada, dada a diferença das línguas faladas, Nhassavele respondeu-nos que não. “Há quem vive lá vinte anos e não sabe falar italiano, mas eu em um ano já falava. Entretanto isso não acontece só com o italiano, dá-se com qualquer língua do mundo. Eu acho que é uma questão de vontade, de versatilidade de cada um”.
Como muitos africanos e não só, que se deslocam à Europa, Nhassavele também sofreu na pele as manifestações do racismo, da xenofobia. “Sofri um pouco isso, mas depois tornei-me uma pessoa amada. Eu trabalhava numa indústria química em Milão, mas conheci a Itália como músico. Fiz muitas coisas bonitas lá, juntamente com a minha malta. Porém, quando chegou a hora de eu voltar para casa, a banda desfez-se, porque faltava o líder, que sou eu. Contudo, fico feliz por saber que eles já cantavam em changana.
O REGRESSO À CASA
Chega um momento em que revemos tudo. Reconsideramos os caminhos, incluindo voltar para trás, desde o momento que isso sirva para buscar novo oxigénio. E é o que Zac Nhassavele está a fazer neste momento. Ele voltou para casa, sem que isso queira dizer necessariamente voltar para trás, porque voltar para trás pode ser outra forma de prosseguir a marcha. Com outras armas. Ou com as armas que havíamos deixado.
E eis que, depois de 18 anos, Nhassavele volta a pisar a sua terra. Num percurso em que a separação com a sua esposa poderá ser um dos motivos mais fortes para este desenlace. “Entristece-me que tenha sido assim, mas voltei às minhas raízes. Sou italiano por conveniência. Mantenho a cidadania italiana por causa da reforma e isso dói-me: ser estrangeiro no meu próprio país”. Nhassavele não está a viver exactamente em Moçambique, muito embora venha para cá regularmente. “Quando cheguei aqui não encontrei as condições que esperava encontrar. Tentei realizar os meus sonhos aqui mas foi difícil. Meu filho chegou a chamar-me para voltar à Itália, porém eu tenho que pensar muito nisso. Optei por juntar-me ao meu irmão na África do Sul, onde ele tem um estúdio de gravação”.
Refira-se que irmão de Filipe Nhassavele, Benjamim Nhassavele, toca no UMOJA, uma banda sul-africana que está constantemente a fazer digressões pelo país do rand e outros. Trabalhou com Peny Peny, Mahlathini e Brenda Fassie.Mesmo estando a trabalhar como técnico na RAS, não se limita apenas a esta actividade. Gravou um disco que tem como título “Thsinela”. Teve que fazê-lo na África do Sul por não ter sido fácil aqui. “Trabalho com músicos sul-africanos nas gravações e os moçambicanos, quando são anunciados os nossos shows, vão em massa, há uma mudança de mentalidade”.
Zac Nhassavele, que se encontra quase sempre com General Música, diz ainda que na África do Sul, apesar do medo constante existente por causa da criminalidade, há muito trabalho. “Se a pessoa tem talento, há sempre espaço para o trabalho. Por exemplo e estou bastante feliz porque o meu tema Na Ku Randza, gravado na Itália, toca-se na SABC no programa “Afro-Café”, que é uma espécie do Masseve da TVM. Não é fácil entrar no Afro-Café e é um orgulho para mim estar lá”.
ALBUM COM QUATRO IRMÃOS
Zac Nhassavele, que conta ainda voltar para Moçambique e concretizar o seu projecto, está aberto a trabalhar com sul-africanos e moçambicanos no país de Nelson Mandela. “Tenho vindo a Moçambique pelo menos uma vez por mês. Estou sempre ligado a minha terra. Nos meus planos consta a gravação de um disco com os meus irmãos, nomeadamente, Benjamim, Tomás e Filipe”. Este é o sonho do nosso compatriota, que já abriu um espectáculo de Jimmy Dludlu em Milão e em 1997 esteve frente a frente com Jimy Clif.
ALEXANDRE CHAÚQUEVisite e ouça em:http://www.macua.org/mp3/zac.html

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Madala lanca CD intutulado "Zuvarabwaka"


O compositor e intérprete beirense, Madala, nome artístico de José Matola, acaba de lançar o seu novo disco. Trata-se do seu quinto trabalho discográfico a solo, intitulado “Zuvarabwaka”, que nos seus dez temas, de carris tradicional, procura enaltecer a necessidade de se primar pelo trabalho para ganhar a vida e, por conseguinte, desenvolver esta Pátria Amada.

A Mandoa, estilo musical tradicional que é característico do sul de Sofala, e atravessa todo um disco que já está a fazer sucesso nas rádios e pistas de dança locais.Para além de Mandoa, o álbum conta com algumas músicas, em número reduzido, que são produto de uma fusão de diferentes estilos e proveniências, convergindo, porém, no facto de serem de carris tradicional.

Aliás, o autor de “Zuvarabwaka”, que traduzido para o português significa O Sol está a raiar, é um dos acérrimos dos defensores da música de raiz, com destaque para os ritmos que são característicos da província de Sofala.

José Matola, ou simplesmente Madala, procura trazer neste disco o quotidiano da comunidade que lhe rodeia, algo que caracteriza este músico de craveira, que há muito conquistou a cidade da Beira e todo o país.A título elucidativo está a música Mussopo, que ilustra o empenho de muitos concidadãos seus que mesmo com poucas posses financeiras procuram garantir o bem estar da sua família, dando-lhe, dentre outras coisas, uma alimentação equilibrada e com um grande poder nutritivo baseada em produtos retirados de pequenas machambas.
Ainda sobre o novo disco, ficamos a saber junto da fonte que constam ainda as músicas Chimurombo e Mangamba, que fizeram muito sucesso nos seus dois anteriores trabalhos.
Mas aparecem com outra roupagem, num Mandoa mais apetrechado. Disse ser objectivo desta iniciativa procurar trazer este estilo cem diferentes variações como forma de estimular a nova geração a primar pelas nossas raízes, sublinhando que é possível fazer a fusão do tradicional com a actual onda juvenil, que se circunscreve em apostar nos ritmos do Ocidente, como é o caso do hip-hop, rap, Kuduro, entre outros.

Madala confessou que já está a trabalhar na produção de temas que vão constar no próximo disco, que poderá estar no mercado já em 2008, mas não entrou em detalhes quanto aos conteúdos do referido disco. Por outro lado, garantiu que os seus fãs poderão contar ainda este ano com um DVD que comportará temas sonantes, como forma de encerrar o ano em grande.

É POSSÍVEL VIVER APENAS DE MÚSICA
Apesar de reconhecer que a vida artística é complexa num país pobre como o nosso, Madala assegura que é possível viver de música em Moçambique. Mas, para isso, disse ser necessário muita capacidade criativa por parte dos fazedores da própria música, dos compositores e intérpretes.

Em todo o caso, é de opinião que o envolvimento do empresariado nacional na divulgação da música moçambicana ainda deixa muito a desejar, principalmente nas províncias. Vai daí que o apelo que faz seja no sentido de, usando a Lei do Mecenato, o grupo empresarial moçambicano se envolva mais de modo a que os músicos trabalhem mais e melhor, como forma de catapultar a música e a cultura moçambicanas para outros mares.

Neste momento, a sua satisfação reside no facto de saber que a nova geração de músicos, particularmente a nível da cidade da Beira, está a trilhar caminhos benfazejos, não obstante, segundo sua observação, a existência de muitos estilos musicais que, não tendo nada a ver com os moçambicanos e africanos, porque importados do Ocidente, os beirenses continuarem a trazer sempre que possível algo que seja puramente tradicional. Exemplos disso são as mediáticas jovens bandas Djaakas e Mussodji, para além de outras que, sem o mesmo protagonismo, conseguem trabalhar na vertente tradicional com muita seriedade.“Os Djaakas e tantas outras bandas já trouxeram muitos troféus para a cidade da Beira e o país, em geral. Isto é sinónimo de que estamos num bom caminho. Claro que precisamos de trabalhar mais, principalmente na exploração de estilos tradicionais para revolucionar cada vez mais o que é nosso”, disse Madala.

Vindo de uma família de artistas, Madala começou a cantar ainda muito jovem, seguindo os passos já trilhados pelos seus dois irmãos mais velhos, um dos quais fazia parte do conjunto Tambores de Sofala, isto na década 70. Aliás, importante será frisar que o próprio pai de Madala tocava acordeão, o que impulsionou bastante para que em 1973 ele, em sua casa, se iniciasse na viola produzida com latas de azeite, enquanto o pai e os irmãos mais velhos ensaiavam.

Anos mais tarde, Madala foi percebendo as qualidades que ostentava e o talento que não só vinha de si, mas de toda a sua família. Não admira que em 1975 apareça publicamente integrado no conjunto Tambores de Sofala, que foi a sua primeira banda. Na altura tocava e interpretava músicas de outros artistas que já haviam granjeado simpatia por parte do público, desde os músicos nacionais aos estrangeiros.

Mais tarde começou a tocar temas da sua autoria, tendo, na década de 80 gravado os seus primeiros trabalhos discográficos, nos Estúdios da Rádio Moçambique. Palmira foi o seu primeiro trabalho a solo, gravado em princípios dos anos 90. Mas o Chimurombo e Ponessa Musi Wango foram os discos que fizeram mais sucesso.

Madala já trouxe vários prémios para a cidade da Beira e a província de Sofala, em geral, destacando-se os prémios Ngoma Moçambique 1998/1999, com as composições Chiripo e Chirmurombo, respectivamente. Ainda no presente ano, foi alvo de uma homenagem promovida pela Associação dos Músicos Moçambicanos. Actualmente, para além de cantar a solo, Madala tem emprestado, muitas vezes, a sua voz à banda AZA, da cidade da Beira, uma das grandes animadoras de festas na urbe.


EDUARDO SIXPENCE

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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Otis, O sax Mocambicano


O saxofonista Otis actuou para o líder da ONU, Kofi Annan, e para emigrantes de São Francisco a Hong Kong. Esteve vários anos nas bandas de Tito Paris, Paulo de Carvalho ou Roberto Leal e lança em NOvembro o quinto disco de originais. O moçambicano é um senhor músico.

Otis é daqueles músicos com currículo impressionante e, aparentemente, um quase desconhecido da sociedade civil. A sua vida musical percorre o jazz ao tradicional pelos cinco continentes, da natal África á histórica Europa ou cosmopolita América.

Otis, nasceu em Inhambane, Sul de Moçambique. O pai era maestro numa banda regional, por isso Otis esteve na escola de música local 12 anos. Mudou-se entretanto para a capital Maputo, então Lourenço Marques, frequentando os estudos gerais na Escola Comercial, que não chegou a concluir pela paixão da música.

O "saxman" intregrou vários grupos, até ficar efectivo na banda da Rádio Moçambique, durante seis anos. O grupo fez uma extensa digressão em 1978, abarcando Cuba (11º Festival Internacional de Havana), Alemanha, Checoslováqia ou Bulgária.
Otis aproveitou a viragem na direcção da banda, em 1985, para vir para Lisboa, onde ainda reside (Linda-a-Velha).

O saxofonista começou em pequenos projectos, sendo até músico convidado do Festival da Canção, no final dos oitentas. O cantor popular Roberto Leal viu-o e convocou-o de imediato para a sua banda, mas Otis só aceitou à terceira. Durante 12 anos, Roberto Leal correu as comunidades lusófonas de Caracas a Washington, de Paris a São PAulo. "Foram tempos maravilhosos. Conheci meio mundo e milhares de portugueses", recorda o moçambicano.

Da World Music ao House

Seguiram-se as colaborações com Paulo de Carvalho (quatro anos), Miguel & André (três anos), João Portugal (um ano) e Beto (um ano). O cabo-verdiano Tito Paris tembém o chamou. "Desenvolvi mais a 'world music' e conheci o outro lado do mundo, de Hong Kong a Madagascar. Sou um previlegiado", admite Otis, sincero. Vieram também convites de Rui Veloso. E até de Dulce Pontes, que em 1997, o desafiou a tocar consigo em Nova Iorque num concerto para o representante máximo da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan.
Mas o admirador de jazz e dos saxofonistas Grover Washington Junior, Dave Kose e Kenny G (o que mais discos vendeu até hoje:30 milhões) também é autor e compositor.

Em Novembro saiu o seu quinto disco, "Olhar para Trás", a fixar o espelho do tempo e a perspectivar a carreira; contou com colaborações de uma cantora alemã de jazz ou das coristas Dora & Sandra, dos Delfins.

Nos discos anteriores de Otis, participaram igualmente Nucha, paulo de carvalho e os Anjos, entre outros.
Uma das últimas actuações a solo foi no "Língua da Sogra", em Esposende, na festa da revista Cidade 21. O cardápio incluiu standarts e temas improvisados. o público ficou contagiado. "Adorei o espaço, o bar exterior é excelentíssimo, a gente acolhedora.

Curiosamente, o intérprete que faz jogging no tempo livre tem-se dedicado ultimamente mais ao house, fazendo duplas com Dj em bares, discotecas ou casinos de Norte a Sul do país. "Sempre me abri à fusão de estilos, influências e novas tendências. É outra etapa da minha evolução como músico, e estou a gostar!", concretiza.

Entrevista à Revista Autores

Otis é um dos poucos artistas moçambicanos que escolheram Portugal para seguir uma carreira musical. Filho de um maestro, cresceu ao som de vários estilos musicais e, actualmente, é considerado por muitos como o melhor saxofonista a residir e a actuar em Portugal. Discípulo de Dollar Brand (Abdullah Ibrahim), com quem já tocou, Otis acabou de lançar o seu quinto trabalho discográfico a solo, "Olhando para trás". Um disco tranquilo, onde o autor recorda todas as influências que fizeram dele um músico de excepção.

Autores - Não é comum encontrar artistas moçambicanos em Portugal, contam-se quase pelos dedos de uma mão os que vieram para cá. Preferiram fica em Moçambique ou foram para outras paragens?

Otis - Em Moçambique, talvez pela influência sul-africana, os nossos músicos que saem do país vão, em primeiro lugar, para a África do Sul, uma terra de excepção. E dali saímos para o Zimbabué, a Tanzânia e outros países. Mas não é fácil triunfar na África do Sul: eles "defendem-se" bem, são proteccionistas, é preciso ser muito bom para vencer na África do Sul. E, por mim, acho que o esforço para penetrar no mercado sul-africano não compensa. Aquele país é um mundo, tem de tudo, é uma potência. Tem de ser muito bom para eles nos deixarem entrar, senão é mais um que por lá anda. Para mim não compensa. Não é que tenha medo da competição, mas prefiro estar em Portugal.

Autores - Quando se fala em Moçambique, a nível musical, lembramo-nos logo da marrabenta. Mas o Otis é um músico moçambicano que toca saxofone. De onde vem essa paixão?

Otis - Eu nem gostava de saxofone, foi o meu pai que me obrigou. Ele era maestro de uma banda, em Inhambane, e hoje agradeço-lhe ter-me influenciado. Quanto à marrabenta, é a nossa música popular enão a esqueço. No meu primeiro disco misturei marrabenta em alguns dos meus temas, mas essa experiência não foi bem sucedida. Só funcionou nos discos seguinres, e já editei cinco. No último disco, pode-se ouvir muita marrabenta.

Autores - Como músico instrumentista é fácil arranjar espectáculos, ter trabalho?

Otis - Estive dez anos para conseguir entrar no mercado português, não foi fácil. E trabalhei com gente importante, trabalhei no Fontória, e foi a partir daí que começaram a abrir-se-me as portas desse mercado. O Roberto Leal viu-me uma vez na televisão, contactou-me, e comecei a trabalhar com ele. Foi uma experiência extraordinária, tenho excelentes recordações, fizemos tournées por todo o mundo. Além disso também toquei com o duo Miguel e André, com Paulo de Carvalho, o Eduardo Paim, o Paulo Flores, entre muitos outros - e peço desculpa aos que me esqueço de citar. Estes músicos ajudaram-me muito, integrei-me melhor na sociedade e na música portuguesa. E ganhei experiência, posso tocar vários estilos musicais. O mercado português é pequeno, para podermos viver e ter trabalho temos que noa adapter. Tocar um único género musical em Portugal não dá, não sobrevivemos.

Autores - Essa experiência contribuiu para a fusão que actualmente faz na sua música?

Otis - Nem mais. Ter tido a oportunidade de tocar com músicos de várias áreas e em vários lugares do mundo fizeram de mim um músico polivalente. Com o meu sax consigo tocar um pouco de tudo, desde marrabenta, kizomba, fado, Rn'B. Até música chinesa...

Autores - Essa mistura de influências nota-se nos discos que gravou até agora?

Otis - Sim. Até agora gravei cinco discos, e o mais curioso é que consigo vender mais no

estrangeiro do que em Portugal. O mercado português é pequeno e as pessoas não estão habituadas à música instrumental. Dou um exemplo: o disco "Influências" que gravei em 1999, vendeu mais nos Estados Unidos do que cá. Claro que nos Estados Unidos o mercado é potencialmente forte e muito maior, mas na verdade é que eu nos Estados Unidos não sou conhecido como sou aqui.

Autores - Já consegue viver só a fazer música?

Otis - Agora sim. tive uma altura que era complicado, mas felizmente agora tenho muito trabalho. Não faço só concertos, sou chamado para animar eventos, lançamentos de marcas, inaugurações de lojas, restaurantes... Trabalho de Segunda a Domingo.
Discos e Titulos dos Temas editados por Otis.

Olhando para Trás (2006)
01. Dongo Moçambique
02. Thank you Lady
03. Gano Zeca
04. Meninos d'África
05. Ana
06. Ethnic Emotions
07. Gaia Moçambique
08. Xihono Muny
09. Pom
10. Olhando para Trás
11. Influências
Viver (2004)
01. Viajando
02. Xubenga
03. Viver
04. Estamos Aí
05. Week End
06. Maria de L. Mutola
07. Moçambique
08. Young Boy
09. Di Meu
10. Morabeza Inn
11. Nha Vida
Influências (1999)
01. Guilhermina
02. O Meu Adeus
03. My All
04. Influências
05. Pacha Ofir
06. Eu Respeito Inhambane
07. Massachusetts
08. Angelina
09. Espaço
10. Baía de Machico
11. Noites Calmas
A Lógica (2001)
01. Anthony
02. A Lógica
03. Fusão
04. Stêlla
05. Halima
06. Voltar à Terra
07. Ethnic Emotions
08. Estrada da Terra
09. Reflexus
10. Cream Dreams
11. Príncipe

Gaia Moçambique (1993)
01. Gaia Moçambique
02. Mano Zeca
03. Friends
04. Meninos d'África
05. Xipamanine
06. Rogério Dias
07. Pai
08. Mapiko
09. Thank you Lady



Tel: (00351) 96 270 54 56
Email: otis@otis-sax.com
Site: http://www.otis-sax.com/
http://www.myspace.com/otissax
Lisboa - Portugal

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Costa Neto faz furror na Europa


"... Ser quem sou.
Sem ser o que seria
Se fosse o que devia ser..."
Costa Neto"
Kanimambu" (Obrigado)




Filho de um faroleiro e de mãe doméstica, Costa Neto nasceu em 1959 no dia 5 de Outubro às 00,00 horas, no último edifício a sul de todo o território de Moçambique, o farol da Ponta do Ouro, na montanha onde o seu pai se encontrava destacado.



Entrou para o ensino primário em 1965 numa missão católica colonial portuguesa em Matutuine, Moçambique.



Em 1970 ingressou num seminário também católico, e em 1971, no ensino oficial secundário na cidade de Maputo, então Lourenço Marques, ainda sob domínio português.
Em 1974, após a revolução portuguesa, interrompe por um ano os estudos, e esta disponibilidade de tempo permite-lhe iniciar-se como autodidacta na música.



Em 1976, pós-independência, regressa à escola, seguindo o ensino técnico, e desiste dos estudos em 1980,recusando-se a um encaminhamento oficial obrigatório à carreira docente. Desde então dedica-se exclusivamente à música, ingressando no mesmo ano no "Grupo 1" de música ligeira moçambicana.



Em 1981, funda com companheiros seus o grupo musical "M'bila", um dos grupos que mais revolucionou a música urbana moçambicana, o qual dirigiu até à sua extinção em 1988. Entretanto, o seu primeiro grupo musical fora o "ABC 78", cujo nome foi por si sugerido aquando da sua fundação em 1978.



Em 1983 é-lhe incumbida a responsabilidade de director interino do Clube da Juventude de Maputo, o centro mais regular na promoção do entretenimento durante todo o período da guerra civil pós-independência, onde se encontravam também baseadas as actividades do seu grupo "M'bila".



Em 1988 parte para Portugal numa digressão, onde decide ficar e residir para dar continuidade à sua carreira artística, o que lhe acarretou enormes dificuldades nos primeiros anos da sua estadia.


Com sentido de solidariedade, envolve-se com artistas oriundos de todos os outros países lusófonos, entre eles alguns dos mais conceituados nos seus países de origem, com muitos dos quais mantêm relações excelentes de camaradagem e amizade, o que lhe inspirou a criar em 1996 o projecto "FAZER", patrocinado pelas Nações Unidas, que envolvia a grande maioria dos músicos africanos residentes em Portugal, para além de personalidades e outras instituições que se solidarizaram com o projecto.



No ano 2000, abalado com a catástrofe das cheias na sua terra natal, Moçambique, escreve e canta o "Sinónimo Vida", que se tornou na prática o hino das vítimas da tragédia, projecto este, que viria mais tarde a ser editado em "Cd single".



Em 2001 marca o início da sua carreira a solo com a edição de "PROTOTYPUS", que se sugere ser um contributo ao desenvolvimento e divulgação da cultura moçambicana e africana em geral, no mundo.



Do álbum "PROTOTYPUS", foram selecionados temas originais como "ÚÈ MWANÊ" para a colectânea pan-africana "MOTHER AFRICA", e "KIKIRIGÔ" para a primeira colectânea da "MÚSICA DA CPLP".



Considerado por muitos como o mais fiel intérprete da música Moçambicana na Europa, tem sido por isso convidado a representar o seu país em alguns dos mais mediáticos eventos onde se requer a presença da cultura moçambicana, destacando-se a participação no concerto de encerramento da conferência "GALEGO EM PÓ" em Santiago de Compustela, Galiza, a participação em três edições do festival "PORTAFRICAS", o encerramento das comemorações em Roma do 10º aniversário dos acordos de paz de Moçambique, a representação de Moçambique no festival "ENCONTROS LUSÓFONOS", em Lisboa, 2004, a participação no concerto "MUSIC AFRICA" em Roma, 2006.



JAZZ COM TRAVO AFRICANO NO PROJECTO LISBOA-MAPUTO-BERLIM


Cinco músicos de Portugal, África e Alemanha juntaram-se num projecto musical inédito, o Lisboa-Maputo-Berlim, que cruza jazz, electrónica e os sons quentes da cultura africana.
Lisboa-Maputo-Berlim, um desafio lançado pelo Instituto Goethe, foi apr esentado hoje em Lisboa, num ensaio aberto à comunicação social que serviu de ap eritivo para o concerto de estreia do grupo agendado para 17 de Março, no Centro Cultural de Belém.



O projecto é liderado pela cantora de jazz alemã Céline Rudolph, que as sina a direcção artística, e integra o baixista guineense Gogui, o baterista moç ambicano Chico Fernandes e os portugueses Ruben Alves (piano) e João Gomes (tecl ados e laptop).
Este encontro artístico surge de um desafio lançado pelo director do In stituto Goethe, Ronald Gratz, que viu em Lisboa a cidade ideal para acolher o pr ojecto.
A ideia, explicou Ronald Gratz à agência Lusa, era criar um diálogo de culturas entre a Alemanha e Portugal, onde acabou por sobressair uma "importante imigração estética de África".
"Só fazia sentido ter este projecto aqui, porque alguns dos melhores mú sicos africanos estão cá", referiu Gratz, director do Instituto há pouco mais de um ano.
No ensaio, junto do piano de Ruben Alves, Gogui e Céline Rudolph acerta vam compassos e ajustavam palavras acabadas de compor por Kalaf para "Metamoflor es", um dos cinco temas já alinhavados pelo grupo.



Chico Fernandes experimentava os ritmos da bateria, enquanto João Gomes soltava do portátil alguns dos sons, de pássaros e de risos de crianças, recolh idos nas ruas de Berlim.
Os músicos foram todos escolhidos por Céline Rudolph, depois de ter pas sado uma temporada em Lisboa a sentir de perto a vida cultural na capital.
"Fui a clubes e salas de espectáculo para ver concertos e percebi que a cena musical lisboeta é muito rica e tem muito bons músicos", referiu a cantora à agência Lusa, lamentando o facto de ter sido obrigada a escolher.
"Mesmo que quisesse, não podia fazer uma orquestra africana", exclamou.
No espectáculo de estreia, a 17 de Março, o Lisboa-Maputo-Berlim irá to car cerca de doze temas, entre originais e versões e até um fado, como explicou Céline Rudolph.



Ao vivo serão tocados, com um "toque de jazz", temas de Mozart e Beetho ven, Thelonious Monk, dois temas compostos por Céline com poemas de Fernando Pes soa e o fado "Meu Amor, Meu Amor", interpretado por Amália Rodrigues.
Por fazer "Música para o mundo", o projecto Lisboa-Maputo-Berlim irá re velar-se também no Porto, em data a anunciar, em Joanesburgo (02 de Setembro), M aputo (04 e 05 de Setembro) e São Paulo, Brasil, (Outubro).



Em 2008 estão previstas actuações em Berlim e novamente em Lisboa, com quatro apresentações em Fevereiro desse ano no Teatro São Luiz.
Em todos estes concertos, o grupo contará com a participação de vários convidados locais.
Em Lisboa estarão o angolano Kalaf, dos 1-Uik Project, o baterista N`Du (Angola), o tocador de Kora guineense Galissa, o percussionista são-tomense Mick Trovoada e o guitarrista Costa Neto.
Para o próximo ano espera-se ainda, segundo o director do Instituto Goe the, a gravação em estúdio de um disco dos Lisboa-Maputo-Berlim com selo da Enja Records.
SS.






CONTACTOS
Tlm. (+351) 962616562
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Projecto Lisboa-Maputo-Berlim

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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Kapa Dech (English)

KAPA DECH was founded in 1996 by young musicians from various bands in Maputo, with the aim of making a difference in the local music scene by fusing modern music and traditional rhythms from Mozambique.
Musically easily can be identified elements of latin music, reggae and jazz blended with xigubo, ngalanga, xingomana, nganda and marrabenta. Lyrically the messages in local languages such as Changana, Xitswa, Chopi, Bitonga and Ndau raising issues such as love, poverty, corruption, debt, racism, beauty of life, to mention few.
The band soon conquered the hearts of the audience with fresh and innovative sounds. KAPA DECH won the first prize in 1997 MUSIC CROSSROADS in Harare, considered the best youth group in Southern Africa and toured Sweden the following year.
In 1997 the band signed a record deal for two albums with the French label LUSAFRICA, which led to the recording of KATCHUME (1998) and TSUKETANI (2000). Both albums received good reviews in the local and international press and the band toured Portugal, Norway, Sweden, France and South Africa.
In 2002 KAPA DECH was a KORA AWARDS nomination in the Best Afrcan Group category.In Mozambique this conscious band has been involved in campaigns such civic education, malaria prevention and HIV/Aids, touring not only as musicians but as educators.

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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

João Paulo foi a enterrar...

FORAM a enterrar na tarde de ontem, (20/02/2008) no Cemitério de Lhanguene, em Maputo, os restos mortais de João Paulo, conceituado músico e intérprete moçambicano do blues, música soul e jazz.

Familiares e amigos, admiradores e amantes da música acompanharam esta figura ímpar no cenário musical moçambicano, tendo, primeiro, rendido homenagem ao malogrado num velório havido na Associação dos Músicos Moçambicanos, cerca de quatro horas. Depois o cortejo fúnebre dirigiu-se ao Cemitério de Lhanguene para o funeral.
Mensagens de condolências, abraços fraternos, silêncio e elogios marcaram este momento carregado de emoção, onde músicos como Wazimbo e os restantes membros do conjunto “Os Monstros” cantaram um dos temas que João Paulo interpretava em vida. Aliás, David Abílio, representando o conjunto no qual João Paulo popularizou-se, disse no seu elogio fúnebre que o malogrado, tal como o seu agrupamento, representa um símbolo de libertação, de auto-estima, da consciência nacionalista e do orgulho negro à juventude moçambicana da década 60/70.

Este conjunto espalhou pelo país a visionária ideia de um Moçambique sem preconceitos, interpretando temas que muito bem vislumbravam o horizonte negro da liberdade, na sua plenitude. Mississipi, Honolulu, Cidade do Cabo, as roças da Guiné são constantemente referidas na sua abordagem temática.
Para João Paulo, explica David Abílio, os ritmos musicais deixam de ser somente puros ritmos para assumir também uma manifestação de consciencialização das gentes negras que vivem empurradas nos seus bairros de lata e caniço de Lourenço Marques (hoje Maputo), desprovidas de tudo, enquanto na zona urbana os colonos reinavam, não dando espaço para a formação e desenvolvimento dos moçambicanos.
Uma das vozes mais autênticas e audíveis em noites de concertos na capital moçambicana, João Paulo encontrou a morte aos 60 anos de idade, na madrugada do dia 18 deste mês, no Hospital Central de Maputo, onde se encontrava internado há dias, para observação médica aos problemas respiratórios que vinham lhe apoquentando.


MORREU na madrugada de 17/02/2008 em Maputo, o músico moçambicano João Paulo. Uma das vozes mais autênticas e audíveis em noites de concertos na capital moçambicana, João Paulo encontrou a morte no Hospital Central de Maputo, onde se encontrava internado há dias, para observação médica aos problemas respiratórios que vinham lhe apoquentando.

Fonte da família disse, em contacto com o nosso Jornal, que, depois de várias intervenções médicas em cuidados intensivos, o músico não resistiu, tendo acabado por sucumbir à doença. Entretanto, ainda não foi marcada a data das exéquias fúnebres.

Nascido em Julho de 1948, na então Lourenço Marques, João Paulo Macamo, de seu nome completo, é tido como um dos principais e mais importantes intérpretes musicais da nossa praça. Iniciou-se na música na década 60, integrando várias bandas como Djambo e o conjunto Arco-Ìris, onde chegou a ser baterista.

Em finais de 1967 é convidado a integrar o agrupamento “Mártires”, que depois adoptou o nome de “Os Monstros”, na qual passa a ser o vocalista principal.
Foi nesta banda e ao lado de nomes como João Pais, também já falecido, que João Paulo tornou-se num dos mais importantes vocalistas do nosso país. Basta recordar que com “Os Monstros” ele actuou em todas as províncias do nosso país e faz digressões por alguns países do continente africano e pela Europa.

Em 1978 emigrou para a vizinha África do Sul, onde deu continuidade à sua carreira.
Anos depois “JP”, como era conhecido e tratado em roda de amigos, regressa a Moçambique onde continua a emprestar a sua voz, cantando temas de gerações anteriores à sua, da sua própria geração e ainda dos mais jovens músicos do mundo musical.

Nas noites de concerto que se realizam nas “casas de pasto”, com particular realce para o “Café Gil Vicente” e o “África-Bar”, locais onde ele muito frequentava, João Paulo reavivava a memória de muita gente, rebuscando na sua “gaveta” canções há muito esquecidas de grandes nomes do Jazz e do Blues. Vai daí que ele se tenha tornado numa figura ímpar no nosso cenário artístico, ganhando, deste modo, o epíteto de “Blues-Man”.

O músico deixa dois filhos, por sinal também músicos, nomeadamente Wilson Douglas Paulo, a viver na Espanha, e Eurico Paulo.

JOÃO PAULO (1948-2008): Calou-se a voz moçambicana do blues.
A MORTE do músico João Paulo abre um precedente na nata dos intérpretes do blues. Mais ainda quando se sabe que aquele blues-man perdeu a vida sem ter registado nenhum disco. No entanto, ele continuará a habitar o imaginário daqueles que com ele privaram e a ser o mestre de muitos que estiveram ao seu lado nas lides musicais.

João Paulo foi um músico com características ímpares, entretanto, pouco entendido na sua sociedade. Ele regressa ao pó com toda a sua bagagem de conhecimentos, restando somente os pedaços que foi espalhando na roda de amigos e nos concertos em que participava.
Antes de entrar para o mundo da música, onde singrou, João Paulo passou pelos relvados do então Sporting de Lourenço Marques, o actual Maxaquene, como júnior. Abandonou o futebol depois de ter contraído uma grave lesão, o que levou a mãe a impedi-lo de continuar a jogar. Para compensar este desaire, e porque nascera numa família religiosa, fazendo parte do coro juvenil da Igreja Missão Suíça, João Paulo decide aprofundar os seus dotes de músico, fazendo ensaios e a ir buscar os dotes técnicos naquele que considera ter sido o seu mestre: Gabriel Chiau. Era um princípio de uma carreira brilhante na qual ainda jovem teve a oportunidade de estar ao lado de figuras como Eneas Comiche, Inácio Magaia, Joel Libombo. Mas também o fervor musical alia-se à Igreja e as gentes da sua comunidade em Marracuene. Esse fervor acabou se aliando a literatura e a arquitectura que muito admirava. Mais tarde procura trabalhar com famosos conjuntos como o Djambu, onde chegou a ser um dos integrantes, João Domingos, também por onde passou.

A PAIXÃO PELO SOUL MUSIC

A paixão pelo soul music inicia quando um tio seu lhe ofereceu um disco do lendário blues-man norte-americano Ray Charles e de um outro músico argelino. Foi quando o músico começou a ganhar consciência de quão penosa era a colonização a que os moçambicanos estavam submetidos pelos portugueses. Isso acontece numa altura em que, ganhando consciência política, o músico começa a ouvir falar e a ler Patrice Lumumba, Kwame Nkrumah e o poeta senegalês Leopold Sedar Senghor. Tudo isto aliado fez com que o músico adoptasse um estilo de música com tendências afro-americanas.
Na década 70, e ao lado de figuras como Arlindo Malote, Adolfo Macaringue, António Manjate, João Pais e Máximo Marcelo, João Paulo funda a banda “Os Monstros”, desintegrando-se assim o conjunto “Mártires”.
Esta banda jovens irreverentes da década 60-70 torna-se, em tão pouco tempo, numa das chamas vivas do soul-music.
Percy Sledje, James Brown, Otis Redding, Frank Sinatra, John Lee Hooker, Louis Armstrong, Ray Charles são algumas das figures que “Os Monstros” vão buscar para fazerem parte do seu rico e vasto repertório.
Deste modo, esta rapaziada passa a ser constantemente chamada para tocar em lugares de elite da então cidade de Lourenço Marques. Liceus e pavilhões, Casa do Algarve, nos Maristas, Parque José Cabral (Parque dos Continuadores) são alguns dentre os vários locais que “Os Monstros” passam a frequentar.
Aliás, basta recordar que esta foi a primeira banda de negros a conseguir actuar em locais onde só tocavam brancos, porque frequentados somente por eles. A partir daí passam a rivalizar com outros conjuntos como “AEC-68”, “Impacto” e “Alta Tensão”.
E porque esta rapaziada já lia histórias da Negritude, do Pan-Africanismo e do Nacionalismo, começa a nascer n’Os Monstros a ideia do nacionalismo moçambicano, passando a usar a sua música como um instrumento de luta pela causa dos direitos cívicos e raciais, à despeito do que acontecia nos Estados Unidos da América. Nessa altura começa a morrer o complexo de inferioridade no seio dos jovens negros moçambicanos.
VIVEU INTENSAMENTE A VIDA - ANA MAGAIA, ACTRIZ DE CINEMA

Fui apanhada não propriamente de surpresa porque sabia que ele andava doente, mas pela ideia da morte. E para mim fica registado o facto de João Paulo ter sido um artista muito pouco explorado no nosso país. Conheci-o quando eu ainda era muito nova, pois ele tocava ao lado dos meus tios Magaia. E tive a oportunidade de privar com ele várias vezes, quando ele ensaiava com os meus tios Carlos e Inácio. Calou-se a voz do blues e do jazz. Ele perdeu a vida sem gravar nenhum disco, mas há pessoas que vivem muito intensamente a vida. Às vezes nós criticamos essas pessoas pela forma como levam a vida, mas elas são felizes nas suas opções. E foi o que aconteceu com João Paulo, que viveu intensamente a vida, mas quem sabe se ele foi mais útil assim do que quem tem cinco a sete discos gravados?

ERA UM FIEL INTÉRPRETE DO BLUES - ALEXANDRE CHAÚQUE, JORNALISTA

João Paulo era uma das grandes vozes que existia no panorama nacional. Um fiel intérprete do blues e do jazz. Ao mais alto nível. João Paulo era um boémio irreverente. Ele assumia isso. Mas também João Paulo era um indivíduo agradável de se estar com ele. Um autêntico contador de histórias. Histórias da sua vida e da vida de outros músicos. Quando estivesse em palco era impossível ficar indiferente à ele, pela sua forma característica de estar e pela forma trepidante como fazia ouvir a sua voz. Aqueles que gostam dum bom blues nunca se esquecerão de João Paulo. Tanto como um grande Homem e como um grande artista. São aquelas coisas que as palavras não descrevem.

VAI PERMANECER NA MEMÓRIA DOS SEUS AMIGOS - GABRIEL MONDLANE, CINEASTA

Sempre admirei e continuarei a admirar e a respeitar João Paulo, mesmo depois da sua morte. Ele era dono de uma bagagem cultural ímpar, o que muitos – sobretudo os mais novos – não souberam e nem aproveitaram. Muitos não souberam quem foi, de facto, João Paulo. Ele sempre foi igual à si, e o exemplo é que mesmo depois de passados tantos anos ele continuava com a mesma expressão, tornando-se leve no palco e intelectualmente são. Um homem aventureiro e conhecedor de muitas coisas da vida, com uma carreira rica de aprendizagens e ensinamentos, pena é que não tenha sido entendido. Sinto que João Paulo vai permanecer na memória dos seus amigos e de todos os seus colaboradores na arena cultural e artística.

CULTIVAVA AO EXTREMO O HUMANISMO - FERNANDO MANUEL, ESCRITOR E JORNALISTA

João Paulo representa uma fase mais descrita e bela da minha juventude. Lembro-me que fazia poupanças para aos domingos e ir vê-lo cantar, em matinés dançantes, no actual Pavilhão de Estrela Vermelha e em bailes de finalistas nos liceus.
Na década 70, devido á perseguição da PIDE, o conjunto “Os Monstros” foi obrigado a incorporar-se, compulsivamente, no serviço militar.
Só muito mais tarde, depois do seu regresso da Suazilândia e África do Sul, para onde emigrara afim de dar continuidade à sua carreira, é que pude estabelecer uma relação de amizade. Uma amizade que se tornou bastante profícua.
Pessoa bastante culta, João Paulo falava com muita sabedoria de todos os músicos que interpretava as suas canções e contava a história dos respectivos temas. Cultivava ao extremo o humanismo, embora fosse um rebelde, o que lhe “possibilitou” a construção de uma imagem de bandalho.
Lembro-me também que João Paulo falava profundamente e com paixão da saga dos escravos nas plantações do canavial nas américas.
Ele foi uma das melhores vozes que passaram por aqui. E foi uma voz inconfundível e não abria a mão sobre a sua condição de artista. Não se vendia. Dizia muitas vezes que não canto por dinheiro, de tal maneiras que levava uma vida desvairada financeiramente. João Paulo viveu por amor à vida e cantava por amor à arte.
Esta situação faz com que diga que a nata intelectual moçambicana perdeu um grande membro. Perdeu um amante da vida. Da vida nocturna, das borboletas e da felicidade.
Nós aceitávamos a o calvário da vida como uma filosofia da própria vida.
Ele tinha me escolhido para ser uma das pessoas que escreveria a sua biografia. É com muita tristeza que falo disso porque já estávamos a organizar e sistematizar os dados para isso.
Por Fernando Manuel
NAQUELA madrugada chuvosa de finais de Fevereiro, sentados lado a lado na esplanada do GOA, figurávamos dois náufragos solitários tenazmente agarrados às suas tábuas de salvação: dois copos cilíndricos de base dura, cano curto dentro do qual tremeluziam cubos de gelo dentro de um líquido amarelo açafrão: uísque.
De tempos a tempos, um par de faróis tresmalhados de um carro tresmalhado levado por alguém ainda mais tresmalhado passava em frente pela faixa lateral arrancando revêrberos de cristal da água sobre o asfalto e, tão silenciosamente como surgia, assim se deixava engolir pela distância, a luz que rareava.
Silêncio.
Silêncio quebrado apenas pelo chicotear das bátegas da chuva de encontro ao asfalto, ao cimento do passeio, as copas lacrimejantes das acácias.
Ele virou-se para mim e disse, sem me olhar: “ sabe, mano: há muita gente que não acredita, mas a verdade é que sou muito tímido “.
Olhei para ele e quis que o meu olhar lhe dissesse: “ não gozes comigo, J.P”. Ele deve ter percebido porque, quase sem transição, passou a contar-me que uma vez, estando a abrilhantar as noites de um hotel em Windoeck, sob contrato, aconteceu detectar, todas as noites, entre os convivas, um “ monumento de mulher. Era uma mulata herero, por quem caí de beiço”.
Amor platónico, pois nunca se atreveu a dirigir-lhe palavra, embora ela o não desfitasse nunca.
“ Um dia, depois de cantar, entro nos bastidores e quem vejo? Ela.”
Ficou “ literalmente paralisado. Ela riu-se e disse-me: fala, homem!Pareces embaraçado “.
Ele abriu a boca e disse: “ chamo-me João Paulo. “Ela: “oh! Isso eu sei” .
João Frederico Paulo Macamo, natural de Marracuene, onde nasceu em Julho de 1947, da “ linhagem dos guerreiros Matavel “, como dizia frequentemente, nos últimos tempos.
Ele tinha-me escolhido – eleito? – para seu confidente, a fim de organizar e escrever as suas memórias. Aceitei a incumbência, na condição de passarmos muitas horas a conversar informalmente sobre si, a sua vida, os seus amores, altos e baixos da vida, para poder atacar com conhecimento de causa quando chegasse o momento.
Aprendi muito para além da sua história pessoal: levou-me várias vezes ao delta do Mississipi, familiarizou-me com a saga dos escravos negros nas plantações do sul dos EUA, as letras dos blues e soul, a história pessoal, profundamente humana nos seus contornos de tragédia sublimada na arte dos autores cujas músicas cantava, compartilhei com ele os dramas que a vida nos vai impondo alimentando o nosso estado de rebeldia nato e irredutível.
E os longos, longos momentos de silêncio, manhãs e tardes e madrugadas imensas.
A aprendizagem iniciática na Igreja Presbiteriana, anos 60, como o regista Paulo Manhiça no livro Marrabentar, a orquestra Djambo, os anos 70 a demarcar espaço em Lourenço Marques com os Monstros, os cabarés e clubes depois do 25 de Abril, a “ humilhação “ que o Samora infligiu ao seu grupo numa soirée no Hotel Polana, quando exigiu que executassem tangos e valsas para dançar, quando os jovens, animados pelos gritos de “ abaixo a cultura estrangeira” tinham alinhavado um bom naipe de marrabentas e zucutas e foram postos, literalmente, no olho da rua com ele entre as pernas – “ nunca me vou esquecer disso, mano. Acredite” – as perseguições do SNASP, que ditaram a “fuga” para a Suazilândia, daqui para a África do Sul, Portugal, os festivais de cerveja na Alemanha e na Austrália e depois…o regresso a casa!
A mesma voz, o mesmo estilo de vida, os amigos – poucos mas bons – a irredutível veia de boémio: “ não há mal que nos chegue, mano”.
E não há mesmo: já no período da outra senhora, quando alguém chamou a atenção dos jovens Monstros para o facto de que a banda estava sob a alçada da PIDE, que lhe preparava a cama, esta alistou-se em bloco para o serviço militar…quase todos como voluntários, visto que ninguém tinha ainda idade para ir à tropa.
E fizeram à tropa à grande e à francesa: percorrendo de lés a lés todo o norte de Moçambique, a cantar para levantar o moral das tropas! Ri-se: “ creia, não disparamos nem um tiro “. E ri-se de novo, aquele riso profundo que lhe saia do fundo do peito, um tchinguito de rouquidão, um travo de amargura sem desfalecimentos gratuitos…
Na manhã de domingo, 17FEV08, caiu-me o iceberg em cima, lacónico no visor do telemóvel: “ morreu João Paulo, cantor de blues e soul music”.
Deixa um cd por gravar, cujos preparativos, já na fase final, tinham-lhe a adrenalina em alta nos últimos tempos. E um filme sobre a sua vida, feito por um jovem realizador que não largava os calcanhares do JP, fosse onde fosse.
Chorar para quê? Não há mal que nos chegue…
SAVANA – 22.02.2008

Photo: Cortesia de Ouri Pota In "http://www.maosdemocambique.blogspot.com/"
Maputo, Segunda-Feira, 18 de Fevereiro de 2008:: Notícias
http://www.jornalnoticias.co.mz/pls/notimz2/getxml/pt/contentx/120111

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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

A Ponte de Roberto Isaias


A PONTE, é titulo do disco com 12 músicas gravado no Brasil, pretende-se que seja o elo do maior intercâmbio cultural entre músicos moçambicanos e brasileiros , fruto do convite feito aos músicos Roberto Isaías, Nelton Miranda , Paulo Matabel e Samito Matsinhe pela Prefeitura de Niteroi, através de sua Secretaria Municipal de cultura/Fundação de Arte de Niteroi. É um projecto que visa incentivar e relançar o intercâmbio no cenário artístico instrumental, ajudando a enriquencer e estreitar fronteiras entre pautas e palcos. É de realçar que a ponte ergueu–se com a vinda de Gilberto Gil a Moçambique, para o projecto Áquele Abraço que culminou com dois concertos, cujo os fundos foram doados a duas organizações nacionais humanitárias, a Rede da criança e Associação Kindlimuka, instituições que apoiam órfãos de pais e vitimas da pandemia do HIV/SIDA. Marcos Gomes, secretário da cultura, e Arthur Maia compositor, produtor e cantor que densenvolveu um estilo inconfundível no baixo fretless, notável também, na música Lalany , foram os responsáveis pela presença de Moçambique no 1˚ NITEROI MUSIFEST INSTRUMENTAL em Niteroi.

Roberto Isaias, compositor, produtor e cantor fundador da banda Kapa Dêch, ex-Presidente da associação Juvenil, e membro do INCD (Rede Internacional de Diversidade Cultural) que é uma organização Internacional com sede no canadá e tem como objectivo restruturação das políticas culturais no mundo.

Membro fundador do OCPA(Observatório das politicas culturais em Africa).
Trabalha desde 2007 com o FNUAP(Fundo das Nações Unidas para a População em Parceria com a Geração BIZ e Ministério da Juventude e Desportos em programas direccionados a Juventude em Moçambique.

Algumas premiacoes de Roberto Isaías .
1-1997 em ZIMBABWE Venceu o primeiro festival de musica jovem a nível regional Music Crossroads(kapadech)
2- 2001 Foi nomeado para KORA Africa como melhor banda de Africa(kapadech).
3-2002 foi considerado pela revista americana billboard um dos melhores compositores da música africana(kapadech).
4-Em 2005 ganhou o premio de melhor voz no ngoma Moçambique.
5-2006 Venceu o premio FUNDAC/Fany Phumo, organizado pelo Ministério da Educação e Cultura como forma de incentivo cultural.
6-2006 venceu o top 9 organizado pela 9TV como melhor vídeo clip do Ano com a musica Lalany 7- 2007 neste momento e Director do projecto Escolha Vida da Artsocial, financiado pelo CNCS em 11 distritos da província de Nampula, que tem como objectivo a formação de Jovens artistas durante os próximos cinco (5) anos em sete províncias de Moçambique.

Participou em festivais nacionais e internacionais ao lado de musicos com prestigio incontestavel tais como, REGINA BELL, BABA MAAL, SPYRO GYRA, JIMMY DHLUDHLU, RAY PHIRI, ANGELIQUE KIDJO, DAUDE, ARTHUR MAIA ,MORE KANTE, BRAZZ BROTHERS, WOMEN UNITE, ELIZAH, SALIF KEITA, JONAS GWANGWA, SIBONGUILE KHUMALO, OLIVER MTUKUDZI, TSHEPO TSHOLA , Hugo MASEKELA, entre outros, marcou presença em grandes festivais, a título de exemplo, Joy of Jazz, Olympia, na França, 21 concertos na Suécia, 7art Zimbabwe e Tour Noruega, Portugal.

Gravou dois discos na França ( Katchume e Tsuketani), editados pela LUSÁFRICA e distribuídos pela BMG e MELOIDE.

Director Geral da ArtSocial, uma produtora independente de musica, cinema e comunicação social que produziu o Road Show TUDO PELA VIDA da FDC, que decorreu de Julho de 2003 a Agosto de 2004. É uma campanha de informação, educação e comunicação sobre HIV/SIDA.

Projectos para 2008/9.
-Gravar A PONTE 2”
-Disponibilizar instrumentos de trabalho aos artistas da província de Nampula que participaram no projecto Escolha a Vida(HIV/SIDA)para darem seguimento ao projecto na capital do Norte. -Implementar o Projecto Escolha a vida na Província do Niassa
-Mobilizar recursos e parceiros para criação da Ordem dos Músicos(artistas, Governo e sociedade civil.
-Vota Moçambique projecto de Educação Cívica para as eleições de 2008/9 envolvendo artistas em 29 distritos de Moçambique.
- Aprofundar as relações entre jovens artistas e A geração Biz através do FNUAP -Incentivar a criação do Instituto de Diversidade Cultural (INCD) em Mocambique

Roberto Isaías: com as armas da vida!
Não será justo pegar neste músico pelo lado dos erros que provavelmente tenha cometido na vida e na música. Até porque pode os ter cometido . A potes. Senão a vida não seria isso: errar, acertar, errar, errar, acertar. O importante é que Roberto Isaías está intrinsecamente associado a muitos sucessos dos Kapa Dêch, durante anos e anos de uma caminhada que começou com um grupo de jovens comandados por objectivos nobres. Com almas quase puras.
Mas – naturalmente – esses jovens já não são os mesmos hoje e nunca poderiam ser. Nem Roberto Isaías. Hoje eles pensam com outras cabeças, influenciadas pelas incursões através da terra que nos oferece sempre outros mundos, outras vivências.

Roberto se calhar ainda não tem todas as armas que ele precisa para guerrear e vencer na estrada que ele próprio escolheu. A dinamite que ele transporta não pode ter explodido ainda na totalidade, embora o rastilho tenha sido aceso há muito. É um jovem que oscila bastante. Corre sempre, à procura de si próprio. Com trabalho. É um empreendedor que, aos poucos, aceita a vida que vive todos os dias, como seu único mestre.

Quando ainda estava no Kapa Dêch, criou a ArtSocial, uma empresa de promoção de espectáculos, com um horizonte que era tornar-se numa editora musical. Este era um sonho que o autor de “Lalani” trazia no coração e na alma já há muito tempo. E hoje esse sonho está concretizado. Roberto, ele próprio, inaugurou a sua editora, lançando para o público o disco “A Ponte” e um DVD. É um desafio muito grande. Porque, numa conversa recente que com ele mantivemos, ele nos afiançou que quer usar a sua empresa para apoiar músicos moçambicanos. “Acho que em Moçambique podemos fazer coisas bonitas em prol da nossa música e este meu projecto tem em vista trabalhar nesse sentido. Vou gravar na minha editora todo o tipo de música, desde que ela tenha qualidade. A minha aposta é a qualidade, para além de que é preciso rentabilizar o investimento feito”.

No tempo em que Roberto era do Kapa Dêch, nunca poupou os meios que tinha (tem) para apoiar a sua banda e, desta forma, facilitar a vida dos seus colegas. Ele sempre fez isso, até que chegou aquele dia. Que foi triste para todos aqueles que amam o Kapa Dêch. Estamos a falar da conferência de imprensa convocada para o “África”, a fim de se anunciar o afastamento de Roberto Isaías do grupo, por ter infringido algumas normas ali estabelecidas e que deviam ser cumpridas por todos.
De repente todos se esqueceram que Roberto, com a sua ArtSocial, e com o apoio da FDC, fez um roadshow que visitou muitos distritos da zona sul do país, levando mensagens de combate ao HIV-SIDA. Isaías levava sempre o Kapa Dêch consigo nesse projecto, como banda residente e dando apoio a muitos outros músicos que nunca se queixarão da postura do autor de “Sumbi”. Mas chegou aquele dia: que parecia indicar o vaticínio da derrocada do homem.
Mas este jovem mostra-nos o contrário. Oscila mas não cai. Continua com a sua ArtSocial, agora também com vocação de editora. Mantém os seus projectos sociais. Esteve recentemente em Nampula com “Escolha a Vida”, apoiado pela Comissão Nacional de Combate ao Sida. Onde trabalha com denodo.

MÚSICA NOVA
Roberto, em termos musicais, não critica de todo o que está sendo divulgado neste momento com muita intensidade. “Isso faz parte do marketing. O que está sendo divulgado neste momento é o que está a dar. Mas é importante referir que eu vou dar prioridade a músicos que eu admiro”.
Por aquilo que se sabe, já existem dados que apontam alguns desses músicos que vão gravar na ArtSocial. Mas são contactos preliminares. “No devido momento saberão desses nomes e são de músicos bons. Acho que não é justo mudarmos de estilo só porque queremos um disco”.

LUSÁFRICA COM A PONTE
Este músico tem uma relação saudável com a Lusáfrica – com a qual tem um contracto válido por cinco anos -, estabelecida na França. É essa editora que se vai encarregar de distribuir “A Ponte” do nosso compatriota. “Inclusive adiantaram-me dinheiro, o que demonstra um grande interesse que eles têm pelo meu disco. É uma obra que circulará na Europa a partir daquele ponto. Os discos vendem-se mais em festivais”.
O ex-Kapa Dêch tem, por assim dizer, a partir de 2008, responsabilidades acrescidas. “Será um ano de muitos espectáculos dentro e fora de Moçambique, sobretudo na Europa. É uma aposta que depende de mim para a sua concretização . Vou me dedicar muito à música. Tenho que trabalhar muito para não defraudar os que me ajudaram.

KAPA DÊCH JÁ ERA?
Roberto prefere esquecer o mal do passado. “Não pode constituir verdade que não sinto saudades do Kapa Dêch. Fiz muitas coisas com aquela banda. Cresci como músico no Kapa Dêch. Então, em termos de memória, prefiro resgatar aquilo que é bom”.
O nosso interlocutor diz que espiritualmente está bem, muito embora se sinta, paradoxalmente, algo triste. “Sinto-me magoado por ver todo um esforço que se fez durante dez anos a ser deitado abaixo. Criamos um marco. Kapa Dêch é superior a todos os nós do grupo. É triste!
Mas o guerreiro continua a de pé. Com as armas que recebeu da vida.

Jornal Notícias de 3 de Outubro de 2007 ALEXANDRE CHAÚQUE

Contactos: robertoartesocial@yahoo.com.br, rilalani@gmail.com
Celular: +258823944731, +258823965187

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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Massukos na Europa...Novamente!

O AGRUPAMENTO musical Massukos volta este Junho ao “velho continente” para quatro concertos nas cidades de Londres, Liverpool, Glasgow e Glastonbury, na Grã-Bretanha, numa digressão que promete reeditar o sucesso alcançado pela banda em 2007. Baptizado como o melhor da história dos Massukos, o ano passado foi marcado pelo lançamento do seu segundo álbum – Bumping - é pelo despertar que trouxe para uma realidade que motiva e desafia os sonhos do grupo:

Definitivamente, para os Massukos, 2006 é um ano para esquecer. Não só devido à morte do jovem percurssionista Américo Miguel, em Abril, vítima de malária, como também devido às fortes turbulências que marcaram a vida do grupo. O líder da banda, Feliciano dos Santos (“Santos”), recorda esses momentos com uma angústria contagiante.

“Foram cerca de oito meses de problemas mas, depois qure sentamos e conversamos, tudo foi superado. São coisas que acontecem com qualquer grupo que cresce, como o nosso. Sempre acreditamos que aquele não era o fim. E não podia ser porque o nosso fim não pode ser programado por forças externas… O que me entristece é que ao invés de ajudar a resolver o problema, as pessoas metiam mais achas à fogueira…”, lamenta Santos.

Uma das missões que a nossa reportagem levava na sua recente deslocação à província do Niassa, era saber algo sobre os Massukos, banda que depois do sucesso que fez com o seu primeiro álbum, o Kuimba kwa Massuko, que vendeu mais de 80 mil cópias, praticamente desapareceu dos palcos, chegando a alimentar rumores sobre a sua dissolução.

Procuramos o líder do grupo em Lichinga, numa manhã chuvosa de quinta-feira, na sede da Organização Não Governamental ESTAMOS, ela também dirigida por si. Depois de nos comunicar sobre a ausência de Santos, a simpática jovem que nos atendeu, pediu-nos o contacto telefónico e sossegou-nos:
“ O senhor Santos regressa esta tarde de Maputo. Assim que chegar ao escritório, há-de ligar-vos”, garantiu. Fornecemos o contacto telefónico e voltamos a entregar-nos à chuva.
Bem dito, melhor feito: Cerca das 13:00 horas daquela quinta-feira, Santos ligou-nos para confirmar que às 14:30 horas estaria disponível para a conversa por solicitada.
“Agora, mais do que nunca, estamos a trabalhar. Digo mais do que nunca porque houve um tempo em que não ensaiávamos, ou pelo menos ensaiávamos muito pouco. Só fazíamos actuações. Também havia o problema dos nossos compromissos profissionais. Agora decidimos que é preciso trabalhar com afinco, para podermos responder com responsabilidade aos compromissos muito sérios que temos para 2008…”, disse.
De acordo com o líder da banda, os Massukos chegam a Londres a 19 de Junho próximo, devendo actuar no dia 21, no África Oye Festival de Liverpool, para no dia seguinte tomarem parte no África Oye Festival de Glasgow. O ponto mais alto da digressão será no dia 28, com a acutação no Glastonbury Festival, uma das maiores festas de música internacional que marca o Verão na Inglaterra. A última actuação será a 12 de Julho no Croydon Summer Festival, na cidade de Londres.

“ Também estamos a trabalhar na perspectiva de aproveitarmos a nossa presença na Europa para gravarmos um disco, o que vai depender da disponibilidade de tempo. Acontece que quatro dos oito membros da banda são estudantes, sendo por isso que a saída foi agendada para Junho / Julho, para aproveitar a época de férias escolares. Além dos quatro concertos já confirmados, vamos também participar noutros eventos em escolas e outras instituições no âmbito da nossa intervenção social…” explica Santos para quem tuda esta agenda justifica a preocupação que há de afinar o grupo ao pormenor.

“ Não podemos dormir na sombra da bananeira!”, alerta.

ACERTAMOS O 2007 EM CHEIO!
O primeiro sinal de sucesso do grupo em 2007 foi o lançamento do álbum Bumping , em Abril, com apoio da organização Não Governamental WaterAid, numa cerimónia honrada pela presença do Presidente da República, Armando Guebuza. O disco comporta onze temas, alguns dos quais recriados para corresponder.

às exigências da editora que queria que o disco tivesse sons acústicos para poder ter mercado na Europa, onde foi lançado em Julho durante a digressão do grupo pelo “velho continente”.
Descrito no site oficial do grupo (www.massukos.org ) como “um álbum sedutivo” que oferece uma combinação única de sons tradicionais moçambicanos, o Bumping foi dedicado ao percurssionista Américo Miguel falecido em Abril de 2006 vítima de malária.

“ A nossa digressão pela Inglaterra, em 2007, percebemos que, afinal, a música afinal dá dinheiro. É um negócio que pode ser rentável para quem trabalha nela com responsabilidade. É uma indústria séria! Os cachets que se pagam nalgumas realidades são estimulantes! O que se exige é trabalho para corresponder às exigêdncias do mercado… Veja, por exemplo, que só os royalities que nos pagam por passar a nossa música nas rádios europeias, superamos o dinheiro que normalmente é pago aqui no país a um artista pela edição de um disco…” explica.
Segundo ele, está na hora se as rádios, televisões e toda a comunicação social moçambicana em geral, colocar a mão na consciência e despertar para o importante papel que o seu trabalho jogar no desenvolvimento da industria musical no país.
“Repare que em 2007 estivemos três semanas na parada europeia de música internacional, o “European World Music Charts” - e na da RDP- África onde ficamos em primeiro lugar durante trêssemanas consecutivas, e ainda integramos o “Top of the World album”, mas, internamente, nem sequer entramos no Ngoma…”, disse.

Em Dezembro, após regresso ao país, os Massukos ofereceram um concerto a cerca de 50 crianças internadas no Hospital de Lichinga, evento sucedido por várias outras actividades de carácter social que incluíram um espectáculo na cadeia civil da capital provincial do Niassa.
“ Não tenho qualquer dúvida que 2007 foi um bom ano para o grupo. Foi um dos melhores anos de toda a história do grupo em termos de projecção e ganhos.Ganhos para nós e ganhos para o país. Este (2008) é um ano par e é preciso capitalizar isso”, desafia.

Feliciano dos Santos MÚSICA MOCAMBICANA:
DISCUTIR QUALIDADE E NÃO IDADES
Feliciano dos Santos tem as suas ideias em relação às discussões que marcam a actualidade no contexto da música moçambicana.

“Eu não sou muito por aquela conversa de de velha guarda e nova geração. Música não é como desporto. No desporto, a partir de determinada idade o indivíduo arruma as botas e retira-se do activo mas um músico nunca se retira. Ele continua a produzir música por mais velho que esteja. E temos muitos exemplos disso pelo mundo fora...”.

De repente, Santos chamou o exemplo do seu grupo que, segundo ele, muita gente a trata carinhosamente como “a jovem banda do Niassa”.

“Se fores a reparar, nós não somos tão jovens como isso. Acontece que fazemos música que acompanha os momentos de vida. É por isso que defendo que a discussão que se deve fazer é em termos de qualidade. Discutir quem produz melhor qualidade…”, sugere.

Segundo Santos, os Massukos têm optado por declinar alguns convites que lhessão feitos para concertos nas diversas cidades do país, embora normalmente actuem nos distritos e localidades ao nível da província do Niassa, no quadro das campanhas de sensibilização contra o HIV/SIDA, água e saneamento.

“Temos uma responsabilidade social pois estamos ligados às comunidades e é através da música que fazemos a nossa parte no esforço colectivo de educação das comunidades. O que não temos feito é sair da província porque os convites que nos chegam não têm sido claros e nós exigimos um tratamento digno à altura da dimensão do grupo. Mesmo nas digressões para o estrangeiro se as coisas não se apresentam claras não vamos”, explica.

Segundo defende, quando o tratamento é responsável a actuação do grupo também é responsável, razão por que, na sua óptica, enquanto as coisas continuarem mal como estão, o melhor para os Massukos será ficar no seu canto, e trabalhar para mercados que satisfaçam o seu ethos.

“Já vimos asneiras que bastam!”, remata.

Actualmente, segundo a nossa fonte, os interesses do grupo são representados por uma empresa sediada em Londres, cabendo a ela fazer todos os contactos relacionados com a participação da banda em concertos ou outras realizações.

“ Precisamos ser valorizados. Veja, por exemplo, em 2007 quisemos trabalhar com uma editora em Maputo para a edição do nosso disco. Disseram-nos que só nos podiam pagar 50 mil Meticais. Dissemos claramente que não porque só para gravarmos o álbum foram gastos por aí sete mil Libras. Não aceitamos. E essa é uma das razões por que o Bumping só é vendido aqui no Niassa, e directamente por nós…”, disse.

TUDO PARA CONQUISTAR PRÓXIMO VERÃO EUROPEU
O compartimento onde os Massukos realizam os seus ensaios é, na verdade, cada vez mais pequeno para a dimensão do trabalho que o grupo precisa fazer para corresponder às exigências do exigente mercado europeu com o qual se comprometeram.

A convite do seu timoneiro a banda abriu as portas à nossa reportagem para assistir ao ensaio que naquela quinta-feira acabou começando um pouco mais tarde devido à chuva que não facilitou a deslocação dos “artistas”.

Na sala, sete almas: Seis homens e uma mulher, a Tânia, que com a Mercy faz a dupla de coristas recentemente integradas no grupo. O exercício anda a volta da busca dos sons que melhor se ajustem ao desígnio colectivo de “electrizar” os fãs.

Entre as velhas e as novas criações do grupo, discute-se, em ambiente de respeito pela ideia do outro, o que melhor serve para oferecer ao público na digressão do próximo verão europeu.

De repente, a nossa reportagem sente-se envolvida no ambiente, que é de festa, porque a música começava a ser destilado a sério, como se do espectáculo ao vivo se tratasse.

“ Gostaríamos de oferecer um espectáculo em Maputo, antes de partirmos para Londres, mas só com músicas novas. A menos que a plateia nos peça um ou outro tema antigo…” e lá ficou um desejo que nos soou à promessa.

SÃO E SALVOS NO PAÍS REAL…

A música do conjunto Massukos preserva o essencial dos ritmos tradicionais da província do Niassa. A primeira apresentação pública do grupo deu-se em 1994, coincidindo com o início do processo de paz em Moçambique, depois de cerca de 16 anos de guerra civil.
Além da língua portuguesa, os Massukos interpretam as suas músicas nas três línguas mais faladas na região norte do país, nomeadamente o Yao, Nyanga e Makua.

A sua reputacão cresceu rapidamente e a sua música cedo granjeou simpatia de audiências internacionais. Em 1998 realizaram a sua primeira digressão para o exterior, para participar na Expo 98, em Lisboa, Portugal, tendo gravado o seu primeiro disco, o Kuimba Ka Massuko, em 2001, álbum que alcançou um espectacular volume de vendas ao nível interno, tendo sido eleito melhor álbum de 2002 e ganho um disco de Ouro em 2003.

A partir daí seguiu-se uma era de sucesso e várias digressões internacionais, na Europa, América e Ásia, destacando-se, de entreasprimeiras, a participação do grupo, em 2004 no Japão, no terceiro fórum mundial da água.
O lider da banda teve ainda a oportunidade de trocar impressões sobre a vida em Moçambique, com figuras como o antigo Ministro britânico das Finanças e actual Primeiro Ministro, Gordon Brown e a estrela pop Bob Geldof . Também apresentou uma petição ao então Primeiro Ministro britânico, Tony Blair, em nome da ONG WaterAid, solicitando o reforço dos objectivos de desenvolvimento do milénio na área de água e saneamento.



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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Gwaza Muthini com Marrabenta e Himpopotamus



Não podíamos ficar indiferentes à informação. Abandonamos temporariamente o local onde se faziam os discursos políticos e as danças, e fomos atrás do anunciado animal abatido, para vê-lo, mesmo morto e fotografá-lo. Mas o que nós não sabíamos é que a notícia nos tinha chegado bastante tarde. A única coisa que podemos ver foi a cabeça, já na derradeira fase de retalhamento e, como se isso fosse pouco, já em estado de putrefação.
Aproximamo-nos, mesmo assim, para ver o trofeu a ser despedaçado. Era uma cabeça imensa, o que nos deixou perceber logo que se tratava de um animal de grande porte. Perguntamos pelos caçadores que haviam alvejado o animal, mas não se encontravam por perto. Queríamos saber sobre o local onde o hipopótamo fora abatido, as circunstâncias em que isso se deu e à que horas. Alguém nos respondeu que o abate acontecera na noite anterior, na zona de Bobole, a cerca de 14 quilómetros da sede distrital. “Eram dois. O outro, apesar de ter sido alvejado, conseguiu escapar do nosso controlo”.
É uma história que aparentemente estava a ser esquecida aos poucos e poucos, porém foi agora renovada nas mentes, lembrando histórias e mitos. Histórias e mitos pois, alguns diziam que por alturas do Gwaza Muthini faziam-se preces junto ao rio, convidando o animal que se entregava voluntariamente para ser abatido e a carne oferecida a todos, que a comiam também como uma forma de revigorar as energias. Outros desmentiam isso, dizendo que, por aquelas alturas o animal, por ser grande, era caçado, utilizando-se várias formas, incluindo o içar de um pano vermelho que atraia o bicho, puxando-o para terra, onde facilmente era abatido com armas de caça. “A carne não era para revigorar energia nenhuma, mas apenas para servir de alimentação normal. Como se sabe, o hipopótamo é todo ele uyma maça de carne e, sendo assim, alimentava quase toda a gente que acorria ao Gwaza Muthini.
Pela história ou pelo mito, o animal foi abatido. Um pouco longe, porém, de Marrcuene e a sua carne foi trazida para a vila e distribuída por quem a quis. Renovando desse modo, tempos passados. Recentemente ou há muito.
Gwaza Muthini já não poderá ser o mesmo. Degenerou com o tempo. Perdeu o vigor desde o momento em que muitos quiseram se aproveitar dele para fazer dinheiro, ou para marcar encontros suspeitos. Não passam muitos anos em que Marracuene, durante as comemorações do “Gwaza”, tornou-se arena de um acidente espectacular, que ceifou muitas vidas que perfilavam ao longo da Estrada Nacional Número Um. Algumas vozes diziam que esse acidente era a ira dos espíritos, revoltados com o que estava a acontecer. Era necessário, por isso mesmo, corrigir alguns procedimentos, como o facto de montar barracas e praticar iniquidade, num reduto sagrado como aquele, em que muitos filhos de Moçambique perderam as suas vidas em defesa da nossa pátria.
A partir desse acidente o Gwaza Muthini começou a perder a sua essência. Vai-se para lá todos os anos e no fim o balanço é de que foi mais uma efeméride. Mas isso não tem nada a ver com a morte de Massinguitane, porque antes dela morreu muita gente defendendo um marco bastante importante da vida dos moçambicanos, sobretudo quando viramos a cabeça e olhamos para trás, para encontrar o sangue derramado na grande batalha de Marracuene.

COM MARRABENTA PARA OS MORTOS

O Festival de Marrabenta já havia começado no dia anterior no Centro Cultural Franco-Moçambicano. Levando ao palco os respeitáveis Dilon Djingi, Xidiminguane, Alberto Mutxeka, Alberto Mhula e os Galtones. Que brilharam como verdadeiras estrelas que são. Estendeu-se depois para Marracuene e Matalana.
Estão de parabéns os mentores do evento – a Logaritmo.
Um dos propósitos do Festival de Marrabenta, segundo David Macuacua (um dos responsáveis do grupo de organização), é dar continuidade e vida a este ritmo que a todos diz respeito. “Este ano juntamos um certo grupo de artistas e cremos que nos anos seguintes faremos o melhor para incluir mais artistas, pois na arte todos têm espaço”.
Há muito que se possa dizer sobre a marrabenta. E os organizadores pretendem transmitir às gerações futuras a história desta vertente cultural. “Para esta edição vamos nos cingir apenas aos concertos. Mas nos próximos anos vamos organizar workshops para que haja reflexão e troca de ideias em torno deste ritmo”.
É um passo positivo este dado pela Logaritmo com vista a valorização da nossa cultura. E eles pensam que se houvesse condições para que ele acontecesse duas ou três vezes ao ano, ficávamos a ganhar todos. Aliás, este festival é visto como uma alavanca para o ressuscitar das diversas manifestações de canto e dança, hoje relegadas para o segundo plano.
Estão – uma vez mais – de parabéns aqueles que se esmeraram para a realização do 1º Festival de Marrabenta.

Bem Hajam!

ALEXANDRE CHAÚQUE
In Jornal Noticias (11/2/08)

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