segunda-feira, 17 de março de 2008

Kid Malume; O outro braço de Alexandre Langa

KID MALUME vai para sempre ficar registado nos anais da história da música moçambicana como aquele que, tantos anos depois de entrar na arena artística como bailarino e corista, saltou para a arte registando um número, indelevelmente forte, porque de crítica social, e depois disso ter desaparecido. “Dumba Nengue va Khoma”, gravado em finais da década 70, catapultou Kid Malume, que de homem totalmente desconhecido em tão pouco tempo transformou-se num dos mais populares músicos da sua geração.

Kid Malume não foi um músico do tipo génio e extraordinário, mas foi feliz na sua abordagem temática, tanto é que quando grava a sua “Dumba Nengue va Khoma”, o que estava em voga era o comércio informal, pois tal como hoje, dali vinha o sustento de grande parte da população e entretanto banido pelas autoridades locais.

Dos registos arquivados e por nós consultados consta somente que depois de “Dumba Nengue”, Kid Malume terá voltado aos estúdios para gravar mais uma música, que leva o título de “Rosinha”. Esta música é uma elegia à mulher, ao amor e ao trabalho. Não há registos de que depois destas duas músicas Kid Malume tenha gravado algo, mas sabe-se que ele perdeu a vida a 8 de Fevereiro de 1996, vítima de doença, entretanto já sem estar no activo.
Quanto ao tema “Rosinha”, sabe-se que este não teve o mesmo impacto de “Dumba Nengue”, que se tornou num verdadeiro hino. Foi com esta música que Kid Malume concorreu em 1988 para o Ngoma Moçambique, tendo ficado durante largas semanas em primeiro lugar. Sabe-se, no entanto, que não chegou a ser laureado.

Não obstante isso, Kid Malume é até hoje recordado nos meandros musicais e pelos amantes da música moçambicana como o autor da célebre “Dumba Nengue”.

Este artista da canção moçambicana não morreu como músico, porque as suas duas canções – principalmente o emblemático “Dumba Nengue” – continuaram a ser ouvidas na estação emissora da Rádio Moçambique, mas infelizmente não com a frequência de outrora, tal como acontece com as melodias de tantos outros artistas da sua geração que deixaram de soar.
Para muitos não interessa o facto de Damião Lopes Massingue, nome completo e de registo civil do artista Kid Malume, não ter gravado para lá de duas canções. Mas sim o importante é o impacto que as suas canções criaram e criam no imaginário daqueles que as ouvem. Por outro lado, nem sempre gravar centenas de canções é sinal indicativo de qualidade.

Aliás, o facto de Kid Malume ter morrido sem registar um número suficiente para lançar um disco de originais, até pode servir para contrariar a ideia de que só a quantidade é que conta.
Como exemplos, chamamos para este espaço os casos do conceituado Armando Mabjaia, que também não registou muitas músicas, serem músicas que tiveram o impacto que tiveram, tendo galvanizado as massas para a introspecção quanto aos problemas de ordem espiritual, das origens e da viagem.

Zeburane (Eusébio Johane Tamele), também registou um número não muito elevado de músicas, mas até hoje é tido como um dos maiores compositores da nossa história musical, com uma forma clássica de tocar a guitarra. Os seus acordes até hoje são reconhecidos como clássicos e contemporâneos, o que chega a espantar os estudiosos destes instrumentos musicais.

Damião Lopes Massingue quando regressou da África do Sul, onde viveu durante largos anos, juntou-se à banda do popularíssimo Alexandre Langa. Aliás, basta recordar que pelos sítios por onde passavam eram tidos como irmãos devido à forma como eles se vestiam, tais eram as semelhanças entre ambos.

Mas, para alguns Kid Malume era o Alexandre Langa em miniatura, pois tudo o abraçava e fazia se assemelhava ao que o autor de “Mabunganine” também fazia. Do corte de cabelo à forma de vestir, até no estilo de cantar e na maneira de andar. Kid Malume era uma espécie de sósia de Alexandre Langa.

Mas, o que vai depois contar no meio de tudo isso é o facto de Kid Malume vir da África do Sul com a intenção de querer se integrar na arena musical aqui em nacional. E o terreno fértil que encontrou foi a banda de Alexandre Langa. Tanto é que eles já se conheciam. E chegado cá, terá procurado por Alexandre Langa. Recordaram os tempos do antanho, desde que deixaram as longínquas terras de Gaza, empreendendo odisseias, que os levaram primeiro a Lourenço Marques, e depois a África do Sul, e, outra vez para Lourenço Marques, onde vieram fixar residência definitiva até ao dia em que Deus os chamou para habitarem o Jardim de Éden.

Alexandre Langa é de Ndavene, no distrito de Chibuto, e Kid Malume vem de Manjacaze. As qualidades vocais e os passos de dança simulados por Malume deslumbraram o jovem de Ndavene, que já era um caso de sucesso nas pistas da capital moçambicana, tendo o convidado a se juntar a si, algo que foi prontamente aceite por Kid Malume.

Kid Malume integra a banda de Alexandre Langa como corista e bailarino. Os dois passaram a partilhar os vários sucessos, estando sempre lado a lado, mas não somente como colegas na mesma banda, como também, e sobretudo isso, bons amigos. Os dois passaram a conviver juntos e em várias ocasiões festivas e informais apareciam juntos.

Importa referir também que quando Kid Malume andava ao lado de Alexandre Langa, isto na componente musical, tinham também ao lado um outro homem, na altura sonante, que é o Francisco Cuna. Os três faziam parelha e constituíam um grande trio.´

Anos mais tarde, Kid Malume decide experimentar-se como músico. E sem abandonar o agrupamento de Alexandre Langa começa em meados da década 70 a ensaiar para registar os seus próprios temas originais. Neste processo, Alexandre Langa nunca deixou de o acompanhar, tendo o orientado até à gravação da sua primeira música, o famoso tema “Dumba Nengue va Khoma”, o que vai acontecer em finais de 1978. E já em meados da década 80, Kid volta outra vez aos estúdios da Rádio Moçambique para registar mais um tema intitulado “Rosinha”.

Depois desta fase de glórias, entre espectáculos e muita farra, Kid Malume passou a gerir crises, principalmente sociais e económicas, nos bairros onde vivia, sempre ao lado do seu companheiro Alexandre Langa.

Bairro de Maxaquene, Mavalane, Mafalala e Polana Caniço são os pontos onde Kid Malume passa a frequentar, mas já sem ser recordado como o autor de Dumba Nengue. E assim vai ser a história de um homem que foi um arauto da liberdade e da música.

Fonte: Jornal Noticias de 30 de Janeiro de 2008, Francisco Manjate

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