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sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

João Craveirinha reage: "A Marrabenta não é nem nunca foi de Gaza"


O escritor moçambicano, João Craveirinha, reagiu às declarações de Alberto Mula, o manjacaziano, segundo as quais a marrabenta é de Chibuto. Eis a opinião de Craveirinha:

"A Marrabenta não é nem nunca foi de Gaza"... É com muita tristeza que digo: Nunca vi tanta ignorância em Moçambique sobre a cultura moçambicana como agora. Nunca digam que não existem pessoas que sabem quando vocês desconhecem algo da cultura moçambicana. E isso nada tem a ver com especialistas de coisa alguma. Mas sim de conhecimento e de vivência.

A poesia de José Craveirinha descreve a Marrabenta e o local de nascimento no seu poema “Comoreano” que toda a gente da faixa etária dos 70 anos em frente se lembra. Nem nos anos 1970 da era colonial a ignorância sobre a origem das coisas moçambicanas era tanta como agora. Tudo isto é fruto do apagão cultural implementado pela "linha correcta" que veio de Nachingweia com todos os ismos anti-rongas, anti-sena, anti-macua, anti-tetense, anti-manhambane, anti-quelimanense, e, em geral, anti-urbano contra os assimilados que viviam nas cidades moçambicanas. Isto é: a mentalidade do mato (nos seus aspectos negativos), sobrepôs-se à cidade nos aspectos positivos que pode ter (de vida em comunidade mais aberta em modernidade e civilidade). A prova está na falta de urbanidade de que enfermam as cidades de Moçambique. O Sinónimo de Desenvolvimento de um país é as cidades conquistarem o mato e não ao contrário com cobras, lixo e tudo.

Em relação à Marrabenta (nome de raiz de arrebenta do verbo em português), trata-se de um ritmo dentro do género da URBAN MUSIC nascido na Mafalala mestiça e ronga dos anos 1930 a 1940 e da fusão básica da Mâgika do Guijá e da rumba cubana (tocada no Comoreano e no Grupo Desportivo Zambeziano de tetenses, fundada por Baltazar Chagonga (por sinal fundador do único partido político moçambicano com sede no interior de Moçambique em 1960 a 1964).

Voltando à marrabenta: outros sons intervenientes foram o Zore dos manhambanes também a viverem na Mafalala na década dos anos 1930/40. Foi no Comoreano dos maDjódjos onde tocava o grande guitarrista mestiço Daíco que a fusão teria se formado. Outro interveniente foi o Chico Albasine, filho de José Albasine do proto-nacionalismo do Grémio Africano, e o Mudapana que trabalhava no John’Orr’s onde hoje está o Banco - MBCM na baixa.

Tudo isto foi dito e documentado num programa da RTK em 1999, intitulado Craveirinha Toque Show - Que Caminho para a Música Moçambique? O maior compositor da Marrabenta foi o maestro António Saúde da Mafalala e o 1º negro a ser maestro numa orquestra de brancos em
Durban na década de 1940.
O que Dilon Djindji toca é a Mâgika (rural e tradicional – folclore) e não a Marrabenta (suburbana) com instrumentos modernos ocidentais, que daria a música ligeira e não tradicional. O rei da Marrabenta, Fany Mpfumo (marronga), era adolescente (anos 1940) quando assistia no Comoreano (o dono era das ilhas Comores) onde havia sessões de Jazz, Rumba cubana e Samba tocada por marinheiros brasileiros, norte-americanos, cubanos em jam sessions com músicos moçambicanos. O Comoreano foi o maior salão africano e moderno de baile suburbano em Moçambique na época e multiétnico.

O verdadeiro pai da Marrabenta, o operário José Paixão – o Zagueta – boxeur, dançarino de sapateado e swing, mulherengo, enfermeiro, espírita e futebolista do João Albasine do Minkadjuíne, ele foi o mestre-divulgador nº 1 dos passos base da Marrabenta quer na Mafalala quer no Centro Associativo dos Negros do Xipamanine, quer na Associação Africana ex-Grémio Africano do Alto Maé dos irmãos Albasines. Outras expressões do Zagueta ficariam célebres ao dançar ( ainda o vi a dançar): Arrebenta; Maria, Executa (o passo…Maria zucuta); Quebra; Risca o chão; senta abaixo; - Zagueta era filho de um branco português e de uma negra ronga.
O poeta -mor, José Craveirinha, em 1960 reabilita a Marrabenta estudando, profundamente, suas raízes e projecta na cidade de cimento da Lourenço Marques colonial chegando ao Hotel Polana da elite branca em 1962/3 através da pintora moçambicana, Bertina Lopes, e o conjunto italiano “Os Cinco de Roma” que lá tocavam. No início dessa década a Rádio Clube de Moçambique inicia um programa “África à Noite” de Alberto Mendonça influenciado por José Craveirinha da Associação Africana.

O músico João Domingos (de Inhambane) acrescenta a versão de um músico de Xai-Xai (mestiço), que nos bailes associativos arrebentava as cordas da viola ao solar um ritmo parente da marrabenta e então um dos presentes pedia que tocasse de novo aquela música que “arrebentava” as cordas. No entanto, e sem dúvida, foi o popular Zagueta que espalharia o nome de Arrebenta e o povo do subúrbio da Mafalala diria “i maRRabenta” ya Zagueta. Tudo isto já foi escrito e dito e repetido parcialmente em imagens no projecto de vídeo de João Craveirinha filmado em 1998/99 em Maputo. VídeoJC projecto para seriado para Televisão
Há mais, mas por hoje é tudo.
João Craveirinha, opinião 23/02/2008
Está longe de terminar a polémica que envolve a “velha guarda” em relação ao criador e à origem do ritmo musical marrabenta. Depois de Dilon Ndjindji se ter auto-proclamado dono deste estilo musical e que o mesmo foi criado no distrito de Marracuene, eis que aparecem, do fundo do túnel, vozes com novas revelações. Alberto Mula, um mandjacaziano, diz que o primeiro tocador de marrabenta foi Feliciano Gomes Muntano, de Chibuto, província de Gaza, e não só...

Mais tarde, veio o ritmo a majika, que teve como fundador Gabriel Muthemba, também de Manjacaze, também província de Gaza. Dentre os primeiros tocadores da marrabenta, que iniciou em 1949, há quem também fale de Daíco, um exímio guitarrista ainda no tempo colonial. Para Mula, “o primeiro tocador da marrabenta foi Feliciano Gomes Muntano, de Chibuto”.

Entretanto, Dilon Ndjindji ainda assume radicalmente a posição de que ele é que “pariu” este género musical em Marracuene. O maior erro é que nada está documentado sobre quem foi o fundador deste ritmo e onde ele surgiu.

Marrabenta não vai desaparecer
Os fazedores do estilo musical marrabenta vieram a público assegurar que este ritmo não irá desaparecer. Trata-se de Dilon Djindji, Alberto Mutcheca e Xidiminguana. O trio defendeu isso à margem do espectáculo inserido no Festival da Marrabenta, realizado de 1 a 3 de Fevereiro em curso na cidade de Maputo e no distrito de Marracuene. “Existem jovens que estão a segurar a marrabenta... eles é que acompanham as nossas bandas; a marrabenta não vai morrer”, consideram.

Quanto ao festival, o qual a organização garantiu que vai ser anual, o objectivo é homenagear os artistas de música marrabenta, que ao longo dos anos fizeram deste género musical a bandeira de Moçambique. A ideia é reavivar-se os grandes momentos que marcaram o período pós-independência em que este estilo musical era manifestamente o principal “cardápio” das festas.

http://www.opais.co.mz/noticias/index.php?id_noticia=5506

Maputo (Canal de Moçambique) - O palco do «Centro Cultural Franco-Moçambicano» acolhe na noite de hoje, a 1.ª Edição do Festival da Marrabenta. No festim, vão desfilar os nomes mais sonantes da marrabenta, um estilo musical muito popular no país e além-fronteiras. Os pesos-pesados do referido estilo musical serão as estrelas da noite de música, dança e calor que vai acontecer hoje no «franco-moçambicano».
Os «Galtones», Xidiminguana e Dilon Djindji são os nomes que vão encher a noite que prometer ser de rebentar. Outro nome que fará parte do já referenciado festival é o guitarrista Nanando que muito bem sabe pôr a sua guitarra a encantar com os sabores da marrabenta. Serve de referência dizer que o Festival de Marrabenta continua amanhã na Vila de Marracuene, por ocasião do «Gwaza Muthine» e no dia 3 de Fevereiro no Centro Cultural de Matalane, do artista plástico Malangatana. Dizer mais para quê, a marrabenta está no ar.

Celso Manguana) 2008-02-01 05:51:00

22/01/2008
Arranca, no dia 1 de Fevereiro, o Festival anual de Marrabenta em Moçambique, na sua campanha de 2008 uma iniciativa da empresa de produção de eventos Logaritimo, em parceria com o Centro Cultural Franco Moçambicano.

Este festival tem a duração de três dias e reúne os artistas moçambicanos da velha geração, como Alberto Mula, Alberto Mutcheca, Dilon Djinji, Xidimigwana e o projecto Rádio Marrabenta, aliás, os precursores da marrabenta.

“O Festival de Marrabenta quer que se faça a devida homenagem aos artistas de música que ao longo dos anos fizeram com que a marrabenta fosse aquilo que toda a sociedade reconhece – património cultural moçambicano.”, diz o comunicado enviado à nossa Redacção pelos organizadores do evento.
O festival de marrabenta quer que se reavivam os grandes momentos que marcaram festas, concertos e casamentos, antes e após a independência nacional. O festival de marrabenta quer juntar no mesmo palco músicos que podem contribuir para a compreensão do percurso da música popular urbana.

Fonte: Redacção Jornal O Pais.

Música popular afeiçoada pelos moçambicanos, a marrabenta aparece nos anos 50, na idade de ouro de Lourenço Marques. Nesta época, a cidade era reputada pela sua doçura de viver e pelas orquestras que animavam as noitadas da capital. A marrabenta, com o seu ritmo animado e suas melodias arrebatadoras, conta através de uma súbtil mistura, pequenos detalhes da vida quotidiana em Maputo e dos grandes eventos da história de Moçambicana.
Na origem, a marrabenta é tocada em acústica por um cantor masculino acompanhado por um coro de mulheres. Hoje em dia instrumentos modernos foram introduzidos. Ao longo dos anos, a marrabenta tornou-se um símbolo cultural nacional e uma referência identitária forte. Muitos mestres da marrabenta passaram uma parte das suas vidas na Africa do sul, onde trabalhavam nas minas. Entre os mais célebres, Francisco Mahecuane, Alexandre Langa, Lisboa Matavele, Abílio Mandlaze e Wazimbo. Durante anos, a orquestra marrabenta de Moçambique, fez vibrar a capital.
A marrabenta atravessou gerações e suscita ainda hoje um grande entusiasmo nos moçambicanos. Os anos 90 em Moçambique foram marcados pelo músico Xidiminguana tornado um grupo culto, símbolo da emergência de uma música moçambicana. Entre outras figuras desta época, temos Chico antónio que apresenta melodias sofisticadas de inspiração tradicional associando percussões, flauta, guitarra e viola baixo e que na companhia da cantora Mingas ganhou em 1991 o prémio RFI descobertas; José Mucavele guitarrista acústico que canta canções tradicionais adaptadas aos ritmos contemporâneos ou ainda Elvira Viegas que adapta ritmos da marrabenta à uma estéctica musical mais pessoal.



Abaixo estao alguns comentarios sobre a marrabenta!

A danca do meu pais. Adoro dancar isto. Sinto mto orgulhosa de ser mocambicana ...

Como é bom dançar isto!Cantei e canto hoje para os meus filhos esta música!

WOW! Que maneira maravilhosa de representar a nossa cultura! E algo que me faz sentir orgulhoso de ser um mocambicano! Viva a cultura mocambicana e a mocambicanidade!

em tempos dancei ..

Bonita Historia de Mocambique !

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sábado, 17 de maio de 2008

Entrevista com Azagaia




Capa do CD Babalaze autografado (Ofertado ao Djo da Gpro)

1- EVENTOSMZ- Como foi que começou a cantar?
AZAGAIA- Comecei a cantar em 1997. Antes já escrevia poesia, muito inspirado em Craveirinha. Eu nasci em Namaacha. Vim para Maputo com 10 anos e com as novas influências comecei a outros estilos de música, como Bone Thugs N´Harmony, Gabriel o Pensador, SSP, Busta Rhymes, Woo Tang, Method Man e mais tarde Boss Ac. Foi a partir daí que comecei a escrever as minhas rimas. Por volta de 1999 juntei-me ao Escudo e formámos a Dinastia Bantu, e foi mais ou menos esse o meu trajecto inicial.

2- EVENTOSMZ- O seu primeiro single foi As Mentiras da Verdade. Quais são, afinal, as verdades de Azagaia?
AZAGAIA- (Risos)...as minhas verdades...hum...é complicado. Eu fiz a música porque tinha muitas dúvidas. Notei que havia muita manipulação da informação, principalmente após a assinatura dos Acordos de Paz. E foi num papo com o Hernâni que vi que as pessoas seguem o que vêm na rádio e na tv. Foi por aí que surgiu a música, para questionar as “ditas verdades” que conhecemos: Samora Machel, Anibalzinho, Carlos Cardoso, Cahora Bassa. São todos casos mal explicados. Eu acredito que nós podemos ser um pouco mais verdadeiros uns com os outros...

3- EVENTOSMZ- Tem consciência de quão polémicas são as suas mensagens? Num país como Moçambique, não é perigoso ser tão frontal?

AZAGAIA- Ya. É assim, realmente é um risco que se tem que correr. Todas as profissões têm os seus riscos. E, naturalmente, se quisermos alcançar os nossos objectivos temos que correr esses riscos. Quanto a ser polémico ou não...bem, eu acho que a polémica é o dia-a-dia, não quando alguém diz aquilo que pensa. Quando surge alguém que diz como uma mensagem diferente é facilmente apelidado de polémico. Eu sei que é perigoso, mas acho que é mais perigoso quando quem se quer expressar está sozinho. Mas agora já começo a sentir mais calor humano à minha volta. Sinto-me mais acompanhado e seguro até, de certa forma.


Cartaz Babalaze de Azagaia

4- EVENTOSMZ- Lancou o seu album recentemente, "Babalaze",porque escolheu esse nome como titulo? Como e que o album esta a ser recebido dentro e fora de Mocambique?
AZAGAIA- Babalaze significa ressaca. Surge inspirado num livro de Craveirinha, Babalaze das Hienas, que retratava o período pós guerra civil. Então peguei na palavra, Babalaze, que simboliza um momento pessoal: eu estava numa altura em que ia lançar o meu álbum a solo e quis que o título simbolizasse o meu estado de espírito. E eu procuro sempre pegar o que é nosso (moçambicano) e daí essa palavra: Babalaze e não ressaca, em português, como forma de valorizar o que é nosso. Quando falamos da receptividade do álbum, posso dizer que dentro de Moçambique está a ser muito bem recebido. No primeiro dia foram quase 700 cópias vendidas.

Foi um momento único e marcante! Muito mais que vender, foi um espaço de sinceridade, de partilha e troca de sensações. Aquele dia foi um espelho do quanto o cd era esperado. E tenho tido um feedback muito positivo. Tive a oportunidade de viajar para a Beira, e acho que foi o melhor concerto que já dei. O calor humano foi mesmo incrível! Espero voltar lá mais vezes. Fora de Moçambique não sei bem. Só sei através de alguém que compra para levar para amigos ou familiares que estão fora. Dei entrevistas à BBc, à Agência Lusa e à Revista Visão, por exemplo. Ah, os meus discos vão passar a ser vendidos em Portugal, a partir de Março, numa edição especial para Portugal.

5- EVENTOSMZ- Quais são as suas referências musicais?
AZAGAIA- Actualmente o people da Cotonete Records. É um pessoal nota 10 para mim. Saindo um pouco da label, a GPRO, 100 Paus, 2 Caras, 3H, o Simba, Xitiku Ni Mbuala. Fora de Moiçambique...hum...em Portugal admiro o Valete, o Boss Ac, Sam the Kid. Nos EUA, Talib Kweli, Common Sense. E recentemente Jay Z, curiosamente. Na África do Sul, gosto de Proverbe. Fora do hip hop, curto Stewart, Kapa Dech, Wazimbo, Baka, que toca fusion e a banda Ndjango. Uma vez perguntaram-me o que era música moçambicana. Eu acho que música moçambicana é aquela que é feita com elementos da nossa terra. Senão a nível instrumental, pelo menos a nível de mensagem. Dizer o que as pessoas vivem, falando daquilo que os moçambicanos vivem e sentem. Eu faço música para o meu povo.

6- EVENTOSMZ- Sabemos que já trabalhou em parceria com rappers como a Dama do Bling ou com Valete. Como foram essas experiências? Com quem gostaria de trabalhar, no futuro?
AZAGAIA- Começando pela Dama do Bling. Eu fui muito criticado mas, desde o princípio, sempre gostei do flow dela. Ela tem uma segurança quando canta e também tem um espírito rebelde, de querer afirmar-se diferente. Ela tem uma linha própria. E sempre achei que devia ter um espírito crítico dentro dela. Quando nos encontrámos, eu sugeri que falássemos de crítica social. E decidimos falar sobre a hipocrisia das pessoas. Ela é muito talentosa e simpática. Foi positivo e acho que deu para quebrar alguns preconceitos que existem. Com o Valete foi muito mais fácil. Estamos na mesma área e fazemos o mesmo hip hop. Foi uma ideia dele fazermos a música alternativos. Falámos sobre o que é ser alternativo para cada um de nós. Conhecemo-nos pela net. Ele gravou a parte dele lá e eu a minha cá e fizemos a troca via net. Até hoje ainda não nos conhemos pessoalmente. A net dá-nos essa hipótese de encontrarmos outras pessoas que pensem como nós noutras partes do mundo. Quanto a futuras parcerias...fora do hip hop, gostava de trabalhar com o Tony Django, dos K10, que tem uma voz excepcional. A nível de hip hop nacional, acredito que acabarei fazendo música com quase todos, dada a dimensão do nosso mercado. Quem sabe um dia com a Sara Tavares e com os rappers que mencionei de Portugal . Enfim, gostaria de fazer música com os músicos que admiro.

7- EVENTOSMZ- Onde se inspira para escrever as suas músicas?
AZAGAIA- Eu procuro inspirar-me no que eu leio. A leitura é uma base para interpretar a realidade. O que eu leio, associado ao que eu vivo...e também pelos sentimentos: o amor; as tristezas, algumas lamentações... Hoje em dia, cada vez mais me assumo como uma pessoa que quer combater esta banalização dos sentimentos das pessoas, o capitalismo selvagem, o consumismo. Já não temos tempo para bater um papo com um amigo. Vivemos num fenómeno de informatização do mundo. A falta de tempo que temos vindo a sentir é um sinal da vida que estamos a levar, nesta época de globalização. E nós, africanos, somos vítimas; somos peões nesse jogo de xadrez.

8- EVENTOSMZ- O que podemos esperar do Azagaia para 2008?
AZAGAIA- Primeiro, tenho agendados três novos vídeos. Quero também apoiar os outros artistas da Cotonete: o Islo, o Pitchó e talvez a Iveth. E começar a gravar o meu próximo cd. Quero conhecer mais gente e aproximar-me mais de outras pessoas.

9- EVENTOSMZ- Assume-se como um porta-voz da juventude moçambicana?
AZAGAIA- Na medida em que sou jovem e faço música, acho que sim. Acho que sinto e vivo o mesmo que muitos jovens também passam e sentem. O mais importante é que acho que falo de povo para povo.

10- EVENTOSMZ- Foi considerado figura do ano de 2007 e uma das cinco(5) figuras de 2007 pelo jornal Online "Canal de Mocambique" e pelo Blog "Diario de Sociologo", respectivamente. Como se sente?
AZAGAIA- Sinto-me muito lisonjeado. Eu não sei se é todos os anos que alguém tão jovem é considerado figura do ano. Penso que foi uma lição para quem pensa que a juventude moçambicana está adormecida. É gratificante sentir que há reconhecimento pelo trabalho que tenho feito.

11- EVENTOSMZ- Que mensagem gostaria de deixar para os seus fãs? E qual o seu comentário ao site http://www.eventosmz.com/?
AZAGAIA- Fãs? Prefiro a palavra admiradores. Agradeço pela força e apoio que me têm dado. São muito importantes. E desejo que continuem a apreciar mais Azagaias que tragam uma mensagem diferente e vos façam pensar e não apenas dançar. Quanto ao site é extremamente positivo. Acho que o pessoal já tem um espaço para ter acesso à agenda, para conhecer os artistas. Dou-vos os parabéns e espero que cresçam cada vez mais. E para o people da Cotonete, dizer que nós vamos limpar os ouvidos de muita gente e trazer-vos muito boa música em 2008.
Local: Centro Cultural Franco-Moçambicano.
Data: Segunda feira, 14 de Janeiro de 2008.
Fonte: Eventos Moz

Com a devida venia extraido da www.eventosmz.com

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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

"Sangue Negro” de Noémia


Na data em que a poetisa completaria 85 anos, 20 de Setembro de 2011, a Marimbique reeditou “Sangue Negro” de Noémia de Sousa e proporciona-nos uma leve caminhada pelos corredores do tempo, ou melhor, da história, da revolta e da emoção.

“Nossa voz ergue-se consciente e bárbara/ Sobre o branco egoísmo dos homens/ Sobre a indiferença assassina de todos”. Noémia de Sousa não poderia ter um interessante poema para dedicar a José Craveirinha, seu velho companheiro dos pequeniques que traçavam as linhas nacionalistas na última metade da década de 1950.

O poema “Nossa Voz”, que abre o livro “Sangue Negro”, lançado ontem em Maputo, na sua segunda edição – desta vez pela Marimbique – prepara-nos para um regresso à história, mas sem abandonar as fundamentais e humanas bases de actualidade que sempre compuseram Noémia de Sousa. Nelson Saúte, que assina o prefácio do livro, nunca escondeu esse profundo sentimento pela senhora que uma vez inspirada pelo spiritual ongs dos negros da América brandaria em versos “deixem passar meu povo”... Escrevíamos que Nelson Saúte nos prepara para esse regresso ao tempo que de que falávamos. Primeiro, ele assume-o ao postar a começar um conselho de José Craveirinha.

“Nelson: procura ser um fiel servo da memória de todos os tempos para que a tua voz se faça ouvir no teu tempo. E escuta com atenção o que te dizem as vozes de outras bocas, de outros mensageiros e as melodias de outras xipendonas. Então sentirás sobre os ombros o peso – o verdadeiro peso – de um genuíno legado, o legado do teu amanhã em que dirás com toda a humildade: ‘Sou um homem de ontem mas não me neguem um lugar de repouso nos céus do vosso Hoje.’”

Um outro escritor, José saramago, segundo Saúte, o teria dito uma vez que ele – Saúte – estaria a “conviver com os seus antepassados literários”. São esses antepassados que os resgataria para “Os Habitantes da Memória”.

O seu prefácio em “Sangue Negro” de Noémia faz-nos reviver esses diferentes tempos. chama-nos atenção para esse passado que teima em habitar com legitimidade no nosso presente, através dos poemas que nos remetem à história, alertando-nos para as mesmas lutas hoje.

Leia mais na edição impressa do «Jornal O País»

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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Viagem ao âmago da nossa identidade identidade cultural


2010 é o ano da marrabenta há um festival da marrabenta, há um comboio da marrabenta e até “artistas unidos” pela defesa da marrabenta.

Os puritanos consideram que se está a registar uma deturpação no uso do termo “marrabenta”, para designar qualquer forma de expressão cultural de índole moçambicana, em termos de música ligeira. Até que ponto isso é verdade?

(...) e da noite para o dia, a marrabenta – ou pelo menos o termo marrabenta – começou a ser falado e propalado em todos os cantos. Um fenómeno sem precedentes, pelo menos a nível dos últimos tempos. “Ele” é Festival da Marrabenta”; “ele” é comboio da marrabenta, “ele” é artistas unidos e empenhados em fazer deste 2010 o ano da marrabenta, enfim! agora, falar de marrabenta é o que está a dar.

Porém, a questão que se coloca é a seguinte: até que ponto toda esta empolgação em torno da marrabenta contribui para a valorização e evolução da marrabenta entanto que estilo musical com características próprias? Será correcto atribuir-se a designação genérica de marrabenta para rotular qualquer forma de expressão cultural de índole moçambicana, em termos de música ligeira?

De uma coisa ninguém duvida, a marrabenta é um ritmo de música-dança que passou por várias fases, desde a sua criação até à actualidade. A As suas origens devem remontar aos finais da década de 30, mas será a década de 50 que a leva ao sucesso, tornando-a um dos produtos mais representativos da música ligeira moçambicana.

Dizem os conhecedores que a marrabenta tem um estilo próprio, uma batida característica que é sintetizada pelo tema “Elisa Gomara Saia”, do Conjunto Djambu. Este será o ícone, a matriz e o protótipo do que é a verdadeira marrabenta. Pelo menos é assim que pensa Rui Guerra, investigador, mestrado em Gestão do Património Cultural Moçambicano, pela Slinders University (Adelaide, Austrália), com quem conversámos e em cuja tese (de licenciatura) nos baseamos em larga escala para a elaboração deste trabalho.

QUEM, QUANDO E ONDE
Há muita controvérsia em redor desse assunto: quando e onde surgiu e quem criou a marrabenta? Há quem diga – e esta versão nos parece a mais coerente – que a marrabenta deriva directamente da mescla dos estilos magika e zukuta (sim, é antigo!). Para outros, a marrabenta foi simplesmente a evolução desses ritmos, ou seja, teria começado por se chamar zukuta, depois magika e finalmente marrabenta.

Também é difícil atribuir a alguém em particular a invenção deste ritmo. De uma maneira mais generalista, pode considerar-se que ele é produto da miscigenação cultural e da migração de grupos étnicos oriundos de diversas regiões do sul de Moçambique, e que a sua estilização contribuiu para que se tornasse popular.

A transformação e penetração da marrabenta no meio urbano deve muito ao movimento migratório de jovens de origem rural e suburbana (Manhiça, Marracuene, Inhambane, Gaza) para a cidade de Lourenço Marques, onde trabalhavam à espera de contratos para as minas.

Este grupo de emigrantes é de facto importante neste processo de introdução de novos ritmos, instrumentos e aparelhos - como a viola e os gramofones -, os quais eram enviados para as suas terras de origem, juntamente com os discos, contribuindo decisivamente para a divulgação no meio rural destes novos sons e instrumentos.

INFLUÊNCIA DOS TROVADORES
Os trovadores – executantes a solo – são os precursores da música ligeira moçambicana, antes mesmo do surgimento dos agrupamentos. Músicos como Muthanda Feliciano Ngome, Francisco Mahecuane Macovela e Fani Mpfumo constituem os precursores da música ligeira moçambicana, dado terem sido os primeiros músicos a gravar, apesar de fora de Moçambique.

Mahecuane gravou, pela primeira vez, em 1945, na África do Sul, o disco “Yi Xibalo Muni Makhandane” e em 1958, no seu regresso definitivo a Lourenço Marques, torna-se famoso com o tema “Moda Xicavalo, Marrabenta, Senta Baixo”, uma das primeiras marrabentas a serem tocadas e a alcançar sucesso, apesar de apresentar uma orquestração básica, envolvendo apenas guitarra e bandolim.

Outro artista de nomeada foi, sem dúvida, Fani Mpfumo. É o caso de maior sucesso, visto ter atingido o estrelato na África do Sul, com vários prémios ganhos, para além de ser visto em Moçambique como uma verdadeira estrela, tanto pelos mineiros que traziam na bagagem os seus discos, como pela população local que ouvia os seus números na rádio.

Para além de interpretar ritmos sul-africanos como jive, simandjemandje, kwela, etc., Fani tocava marrabenta. De tal modo que o seu primeiro disco, gravado em ronga, em 1951, foi “Georgina Waka Nwamba”, tendo a música que dá o título ao álbum obtido grande sucesso. Outros números de sucesso também se seguiram, como: “Nyoxanini”, “Famba ha Hombe”, “Hodi”, “King ya Marracuene”, “Nichelelani”, entre outros.

Pela sua veia compositora, versatilidade e pelo número de discos publicados, Fani Mpfumo foi considerado o verdadeiro rei da música ligeira moçambicana, apesar de ter estado emigrado por largos anos, tendo voltado definitivamente ao país em 1973. O resto é sabido: a sua ligação à música continuou até à altura da sua morte, em 1987, vítima de doença.

AS ETAPAS POSTERIORES
O período que vai do limiar dos anos 60 até 1974 é tido como o da divulgação e promoção da marrabenta. Efectivamente, a marrabenta passa a ser dançada e ouvida por negros e brancos sem preconceitos de qualquer espécie. Passa a ser vista como a verdadeira música de Moçambique e dos moçambicanos, daí que tenha começado a ser promovida pelo empresariado local.

É nesse quadro que, em 1971, é criada a “Produções 1001”, vocacionada à procura e promoção de talentos moçambicanos. Aí são descobertos artistas hoje famosos, como Wazimbo, Simião Mazuze, Jaimito, Pedro Ben, Alexandre Mazuze, Elsa Mangue, Matchote, João Wate, Abel Tchemane, entre outros.

Surgem, então, dois programas, destinados à população suburbana e à população citadina, nomeadamente, o “Xitimela 1001”, que se realizava no Cinema Olímpia, e o “Expresso 1001” que acontecia no Cinema Nacional (actual Centro Cultural Universitário).

A REVOLUÇÃO E A MARRABENTA
Depois da Independência, a marrabenta foi, supreendentemente, desqualificada, ao ser considerada um produto da cultura burguesa decadente pelo governo revolucionário. Aí se deu o grande marco da descontinuidade. Para o bem ou para o mal, a verdadeira marrabenta foi então profundamente abalada.

Não obstante, e numa fase em que tudo escasseava e as dificuldades por que passavam os artistas eram brutais, por iniciativa do Estado, foi criado o Conjunto RM, congregando uma série de músicos, nomeadamente, José Guimarães, Alípio Cruz, Chico António, Mingas, Zeca Tcheco, Wazimbo, Matchote, Milagre Langa, Sox, José Mucavel, Alexandre Langa. Nessa fase, surgiram ainda os grupos Hokolókwè, Mbila, Alambique e Ghorwane, caracterizados pela produção de temas e músicas de caris moçambicano.

Depois disso, vieram outros e mais outros, até se chegar aos dias de hoje, onde a profusão de estilos e ritmos é abismal. São todos (?) bons. São todos representantes da música moçambicana – se por mais não seja, porque são moçambicanos – mas são raros os que tocam aquilo a que se considera marrabenta.

E porque, conforme dissemos, se passou a atribuir aos ritmos tocados a designação genérica de marrabenta, os puritanos consideram que está a registar-se uma deturpação do uso do termo, para designar qualquer forma de expressão cultural de índole moçambicana, em termos de música ligeira. Será isso correcto?

Enfim, tire o leitor as suas próprias ilações.

Os conjuntos e a estilização da marrabenta
Os conjuntos musicais e as associações culturais tiveram grande influência na difusão e, sobretudo, na estilização da marrabenta. Como já se disse, o ritmo começa a ser “urbanizado” em finais da década de 50, quando surgem os primeiros conjuntos moçambicanos, como Young Issufo Jazz Band, Orquestra Djambu, Hulla-Hoop (que passou a Conjunto João Domingos), Conjunto Harmonia e Kenguelequêze, que começam a tocar ritmos locais, para além dos internacionais, que então estavam em voga.

É a partir desse momento que a marrabenta é divulgada, deixando de ser conhecida, dançada e tocada apenas nos subúrbios. A sua entrada para as associações, neste caso a Associação Africana e o Centro Associativo dos Negros da Província de Moçambique, muito contribuiu para a sua promoção, pois deixa de estar confinada ao subúrbio. Isto é, sai do caniço e entra no cimento.

A adopção da marrabenta pelas associações foi incentivada por duas importantes figuras do meio cultural moçambicano: José Craveirinha, na Associação Africana, e Samuel Dabula Nkumbula, no Centro Associativo. Culturalmente esclarecidas e politicamente conscientes, estas figuras defendiam que os agrupamentos que ali se exibiam deviam tocar ritmos moçambicanos.

O Young Issufo Jazz Band foi o primeiro conjunto, constituído por indivíduos de raça negra. Foi formado em 1956 como um quarteto, passando para sexteto, em 1957, ano em que se viria a desmembrar, porque Young Issufo, o líder, optou por tocar num baile de finalistas, no Liceu Salazar, enquanto os outros componentes do grupo preferiram tocar no Centro Associativo dos Negros. A sua dissolução deu origem à Orquestra Djambu e ao Conjunto Hulla-Hoop, os quais se tornaram famosos a tocar marrabenta.

A Orquestra Djambu nasceu em 1958 e começou por tocar jazz e blues. A marrabenta só seria tocada mais tarde, sendo o seu tema mais emblemático “Elisa Gomara Saia”. Já o Conjunto Hulla-Hoop – que mais tarde passou a designar-se Conjunto João Domingos – foi fundado por Young Issufo, Gonzana e João Domingos, também em 1958. Entre os seus números, destacam-se: “Júlia”, “Jorgina”, “Tampa ni Xicandarinha”, “Massoriana”. Curiosamente, este grupo só viria a gravar o seu primeiro CD no ano de 2000, captado num show ao vivo, em Macau.

Ainda em 58 surgiu o Conjunto Harmonia. De acordo com Gabriel Chiau, um dos integrantes desta banda, que ainda se mantém no activo, este era o mais humilde dos três conjuntos, mas tocava de forma mais original.

Sexta, 12 Fevereiro 2010 Homero Lobo.

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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A mãe dos poetas moçambicanos



A segunda edição de “Sangue Negro”, livro de Noémia de Sousa, foi lançada esta semana.

Do seu posfácio fomos buscar dois textos, um de Nelson Saúte, que tem como título “A mãe dos poetas moçambicanos”, e outro de Francisco Noa, que nos ajudam a perceber a alma que existe nos textos desta poetisa.
Eu tinha 15 anos e o poema dizia: “Somos fugitivas de todos os bairros de zinco e caniço./Fugitivas das Munhuanas e dos Xipamanines,/viemos do outro lado da cidade/com nossos olhos espantados,/nossas almas trancadas,/nossos corpos submissos escancarados./De mãos ávidas e vazias,/de ancas bamboleantes lâmpadas vermelhas se acendendo,/de corações amarrados de repulsa,/descemos atraídas pelas luzes da cidade,/acenando convites aliciantes/como sinais luminosos na noite”. Passados estes anos não sei proclamar o meu espanto. Mas lembro que sobre a retina daquele rapaz que eu era, na incauta leitura de uma antologia de Orlando Mendes (Sobre Literatura Moçambicana), ficou a reverberar um nome estranho.

Quem seria essa mulher que se escondia no nome de poeta Noémia de Sousa? - interrogou-se o menino que fui. Naquele então a literatura que conhecia era sobretudo o pecúlio trazido no ombro dos guerrilheiros. Era essa a poesia que sobrava das artes de declamação experimentada nos pátios das escolas, onde fomos continuadores da revolução e exaltadores de todas as utopias - tudo o que agora está inscrito no refluxo dos nossos sonhos.

Noémia de Sousa não constava do meu bornal de amador de poetas. Tinha lido, tinha dito, lá no alto da minha inocência, versos da chamada - e aclamada - poesia de combate. Mas desconhecia em absoluto esta mulher.

As buscas começaram imediatamente. Quem era Noémia de Sousa, autora daqueles versos frenéticos, daqueles versos longos e belos, que falava de moças fugitivas dos bairros onde estavam acantonados na mais vil miséria, das Munhuanas e dos Xipamanines, do outro lado da cidade, com os olhos espantados?

Carolina Noémia Abranches de Sousa era o nome dela. Nascera a 20 de setembro de 1926, ali na Catembre, numa casa à beira do Índico, albergue que seria celebrado num dos seus poemas mais emblemáticos.

Não tardou a descobrir que esta mulher escrevera apenas durante três anos, o bastante para incendiar o rastilho da poesia que reivindicava a personalidade dos oprimidos, que fundava a literatura dos marginalizados. Tudo isto entre 1948 e 1951. Hoje, neste ano prodigioso de 2001, vemo-la aqui, em livro, na celebração dos 50 anos, sobre o silêncio. Silêncio quebrado em 1986 aquando da morte de Samora Machel, reincidência praticada anos depois, num dos textos mais belos e comoventes, que Carlos Pinto Coelho fez publicar no seu álbum de fotografias “A meu ver”.

Noémia viveu na Catembe, do outro lado da baía de Maputo, até aos seis anos, quando se mudou para a então Lourenço Marques. O pai, funcionário público, era originário de uma família luso-afro-goesa da Ilha de Moçambique. Foi ele que a ensinaria a ler aos quatro anos, movido provavelmente pelas mesmas ideias de progresso que animavam personalidades como Estácio Dias (pai de João Dias) ou os Albasini, com quem convivia. Sua mãe, nascida na Bela Vista, para lá da Catembe, era filha de um alemão (Max Bruheim), caçador e negociante, e da filha de um chefe ronga, Belenguana.

A morte do pai, ocorrida quando Noémia tinha oito anos, veio transformar as condições de vida da família, que vivia até então relativamente desafogada, vendo-se a mãe da poetisa a braços com o sustento de seis filhos, dois deles a estudar em Portugal, com a ajuda de uma tia paterna. Aos 16 anos, Noémia de Sousa teve que se empregar, mas estudava à noite na Escola Técnica, onde frequentava o curso de Comércio.

A vocação da escrita foi precoce, iniciara-se fazendo jornais de parede com os irmãos. O mano Nuno, um dia, veio confidenciar-lhe que havia um amigo - Antero, a quem dedica um dos seus poemas iniciais - que estava num grupo de outros rapazes que tinham tomado de assalto, por assim dizer, o jornal da Mocidade Portuguesa, sob a direcção do poeta Virgílio de Lemos (o mesmo que mais tarde iria editar a folha M’saho de poesia, que estava nos antípodas do que Noémia de Sousa poderia defender) e que solicitava uma colaboração sua.

Noémia escreveu o “Poema ao meu irmão negro”. Assinou-o com as iniciais: N.S. Provocou alvoroço. Quem seria N.S? A esta distância este título parece inocente, mas quem atentar para a época não terá dificuldades em sublinhar a coragem inusitada da jovem Noémia de Sousa.

Cassiano Caldas, funcionário dos CFM, ligado ao projecto Itinerário, onde colaboraram muitos dos poetas que se haveriam de consagrar no período anterior à Independência de Moçambique, deu-lhe a conhecer a revista Vértice. Foi nessa revista que leu, pela primeira vez, Nicolás Guillén, o poeta cubano do Songoro Consogoro. Leu depois muitos livros sobre a vida dos negros americanos em tradução brasileira. Entre a situação do Sul dos EUA e a situação em Moçambique daquele tempo, Noémia conseguia estabelecer similitudes.

Longe consagrava-se a Negritude, mas Noémia não a conhecia. Foi através da afirmação dos valores dos oprimidos que a poetisa se sentiu perto das ideias defendidas, na época, por pessoas como Leopold Senghor ou Aime Cesaire (de quem veio a traduzir mais tarde o famoso “Discurso sobre o colonialismo”). Mas não os lera, nem outros dos que nela pontificavam. Ela vivia distante na sua Munhuana, lendo sobretudo os escritores neo-realistas portugueses, que lhe chegaram pela mão de Cassiano Caldas.

Ao tempo que Norton de Matos foi candidato às presidenciais em Portugal, Noémia de Sousa começou a frequentar outros jovens que despontavam para as artes e letras em Moçambique: Ruy Guerra, Ricardo Rangel, entre outros.

João Mendes, irmão do escritor Orlando Mendes, era um congregador de jovens e utopias, ajudando a mapear uma nova realidade, distante da estratificação racial. Não escrevia, unia. A sua actividade, da qual resultava a junção dos rapazes da Polana, chamemos-lhe aristocrática, à Mafalala empobrecida, valeu-lhe a deportação. João Mendes é um dos homenageados pela poesia de Noémia de Sousa.

Noémia iniciou a sua colaboração com “O Brado Africano” quando se procurava terminar o projecto da Associação Africana. Entrincheirados na defesa da causa estavam: Cassiano Caldas, Henrique Dahan, Brassard, Miguel da Mata, Víctor Santos (irmão de Marcelino dos Santos), Nobre de Melo, Amália Ringler, Dolores Lopes, entre outros. Estes angariavam dinheiro para finalizar as obras da Associação. Noémia de Sousa escrevia na Página Feminina de “O Brado”. Publicava poemas.

“N’O Brado Africano” ainda ressoava o nome de um Rui de Noronha, a quem Noémia via passar em frente de sua casa. Nunca falou com ele. Também não conviveu com João Dias, outro dos nomes tutelares da nossa literatura. Contudo, a jovem não se esqueceu dos papéis que ambos desempenharam na fundação da literatura moçambicana, de que é um dos mitos fundadores.

Naquele tempo não se podia imaginar dispositivos comunicacionais como a televisão. A caixinha mágica não chegara ainda, mas frequentava-se o cinema, sobretudo as matinés, no Scala, no Gil Vicente ou no Varietá. Ouvia-se música em grafonolas. Conspirava-se. Noémia de Sousa cresceu nesse ambiente de reivindicação.

Poder-se-ia considerar assim uma nota que redigiu para “O Brado Africano”, referindo-se a um jovem moçambicano que motivava uma forte manifestação de solidariedade na África do Sul, por não lhe ter sido concedida a prorrogação do visto de residência temporária pelo Governo de Malan, o que o impediu de prosseguir os estudos na Universidade de Wittswaterand. Esse jovem chamava-se Eduardo Chivambo Mondlane. Conheceu-a depois, regressado a Moçambique, antes de embarcar para Lisboa, onde permaneceu um ano antes de rumar para os Estados Unidos da América.

Noémia, que participara nas actividades do MUD-Juvenil, que distribuíra panfletos à noite com João Mendes, que escrevera cartas subversivas, que redigira artigos cortados pela censura, que conspirara, não escapou à prisão. O cerco apertava-se. Em 1951 teve de partir, seguindo o extenuante caminho do exílio e deixando atrás de si, na PIDE, o Processo 2756 CI (2).

Mário de Andrade, quando soube que ela ansiava partir, escreveu-lhe encorajando-a. Desembarca em Lisboa quando a “geração da utopia” (no dizer de Pepetela) sondava as independências. O Centro de Estudos Africanos, do qual fez parte, funcionava na rua do Vale, 37, casa da Tia Andreza, tia de Alda do Espírito Santo, de São Tomé e Príncipe, companheira de jornada.

Amílcar Cabral, Mário de Andrade, Marcelino dos Santos, Lúcio Lara, Agostinho Neto, Francisco José Tenreiro eram os nomes mais conhecidos da intelectualidade africana em Portugal. Com eles Noémia de Sousa partilhou as acções que estão na base da fundação dos movimentos de libertação de cada país. Este período precisa de ser melhor cotejado, mas, tanto quanto sabemos, a participação de Noémia não foi episódica. Antes pelo contrário, foi activa.

Noémia de Sousa foi companheira de jornada destes nacionalistas. Quando a PIDE cerceou o pouco espaço que tinham de intervenção, os jovens decidiram-se por França, onde, aliás, Noémia irá buscar refúgio da ditadura, com uma filha às costas – Virgínia Soares (ou melhor, Gina). Saltou a fronteira, galgou os Pirinéus e alcançou a liberdade. Casara-se em 1962 com o poeta Gualter Soares.

Marcelino dos Santos conseguiu emprego no Consulado de Marrocos em Paris. Entretanto, Lilinho Micaia partiu para outra frente de combate, em Dar-es-Salaam. Vera Micaia (quero eu dizer: Noémia de Sousa) atardou-se por Paris até 1973, ano em que decide regressar a Portugal, para preencher uma vaga na agência Reuter. Não adivinhava que a revolução estava à porta.

No dia 25 de Junho de 1975 estava na sua casa de Algés na companhia dos legendários futebolistas Eusébio da Silva Ferreira e Hilário da Conceição e respectivas mulheres. Não fora convidada para a independência. Anos mais tarde, na mesma casa, havia de me confidenciar que tal facto a deixara magoada.

Trinta e três anos depois da partida, regressa à grande casa deitada à beira mar. Essa “casa” talvez não fosse apenas a casa da Catembe, talvez fosse Moçambique ou mesmo África. Foi um reencontro mediado por lágrimas, tremendamente emocionado. Há um poema onde ela intenta o sonho: “Um dia o sol inundará a vida e será como uma nova infância raiando para todos”. Eram os anos da bicha nos talhos pela madrugada, do carapau de Angola cozido e recozido, da farinha amarela, do repolho feito de todas as formas. Eram os anos da crise, da falta de luz, da falta de água. Foi no tempo em que o desespero se apoderava dos moçambicanos. Era o tempo em que a revolução expulsava os bastardos para o Niassa. Anos 80! Foi quando Noémia visitou a terra. A pátria.

Noémia de Sousa estava já na condição de um mito, um mito afirmado nos armoriais da literatura moçambicana. Seus poemas tinham sido adoptados para estudos nos compêndios da escola da FRELIMO na luta armada e agora eram lidos nas escolas moçambicanas. Seu legado tinha sido recuperado pelos poetas de outras pátrias como Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe.

Entretanto “O Brado Africano”, “Itinerário”, “Msaho”, “Mensagem” (em Luanda), “Notícia de Bloqueio” (no Porto), “Moçambique 58”, “Vértice”, entre outras publicações moçambicanas e estrangeiras haviam-na publicado com ênfase.

Mas também Carolina Noémia Abranches de Sousa, aliás Noémia de Sousa, comparecera nas antologias: “Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa”, em 1953, veja-se a que tempos!, uma antologia organizada por dois saudosos campanheiros de jornada literária e de luta cívida: Francisco José Tenreiro (poeta são-tomense de grande quilate) e Mário Pinto de Andrade (o historiador, o intelectual, sobretudo a consciência crítica desta “geração da utopia”, para pilhar uma vez mais a expressão do Pepetela).

Cinco anos depois da edição deste caderno, que era singularmente dedicado ao poeta cubano de Songoro Consogo, que vivia exilado em Paris, longe da sua La Habana, onde ainda sobrevivia Fulgêncio Batista, que rapidamente seria expulso por Fidel Castro, “Che” Guevara e outros guerrilheiros que desceram da Sierra Maestra - Nicolás Guillén -, viria a lume “Poesia Negra de Expressão Portuguesa”, desta feita editada em Paris, para onde fugira exilado o seu organizador - Mário Pinto de Andrade.

Na altura, Mário de Andrade montara banca na “Presence Africaine”, importante publicação no contexto da afirmação dos valores dos povos mudos da História. Ano depois, em 1959, a Casa dos Estudantes do Império (CEI), que tinha uma actividade editorial significativa, responsável pela revelação de grandes nomes da literatura africana de língua portuguesa - José Craveirinha lá se havia de estrear em livro com “Xigubo” em 1964 - faz editar a antologia “Poesia em Moçambique” (separata da Mensagem), onde Noémia de Sousa não é ignorada.

A mesma CEI editará em 1960 e 1962 duas antologias intituladas “Poesia de Moçambique”, ambas prefaciadas por Alfredo Margarido, que estão na origem de uma polémica, uma das mais interessantes da época, desencadeadas por Eugénio Lisboa, que praticava já um juízo crítico cáustico e cauterizante.

Noémia de Sousa era já um nome afirmado a despeito do facto de ser inédita em livro próprio. Lida e seguida não só em Moçambique, mas em outros países onde uma visão da literatura, como instrumento de confrontação ideológica, tinha lugar.

Outras antologias importantes que recolhem os seus poemas: “Antologia Temática da Poesia Africana - Na noite grávida de punhais”, organizada também por Mário Pinto de Andrade. Dez anos depois, em 1985, Manuel Ferreira acolheu-a em “No reino de Caliban III”, antologia dedicada à poesia de Moçambique. Aliás, convirá dizer, como testemunho para o futuro, que Manuel Ferreira foi dos primeiros a tentar publicar Noémia de Sousa em livro. A poetisa, aversa à publicação, alegou que queria que seus poemas fossem, antes de tudo, primordialmente editados em Moçambique, onde é estudada nas escolas, lida através de textos avulsos que circulam, de mão em mão, fotocopiados, policopiados. A supra-citada antologia de Orlando Mendes refere-a na “Antologia da Nova Poesia Moçambicana”, que eu havia de co-organizar com Fátima Mendonça, editada pela AEMO em 1993, coligimos os versos a Samora Machel, feitos a pedido do sobrinho Camilo de Sousa, para um documentário sobre o Presidente.

Há 15 anos precisamente, quando Noémia completava 60 anos, escrevi “Carta a Noémia de Sousa”. O texto é incipiente mas foi recolhido num dos manuais escolares do nosso ensino secundário. Foi lido na Rádio Moçambique no dia 20 de setembro de 1986. Mandei-o à Gazeta de Artes e Letras da revista Tempo. O coordenador, meu amigo Gilberto Matusse, esqueceu-o na gaveta. Contudo, um ano depois, havia de publicá-lo.

A primeira vez que aterro em Lisboa, cometo a ousadia de telefonar para Noémia. Levava comigo o seu número de telefone, dado pela Fátima Mendonça. Começa tudo aí, nesse encontro em Algés, festejando a nossa independência – era Junho! -, comendo feijoada e lendo Carlos Drummond de Andrade. Nos anos que em Portugal, errei como estudante, fui visita constante de Noémia de Sousa. Hoje, quando lá vou, não posso regressar sem a ver.

Em todos estes anos insisti, como o fizeram muitos, na edição dos seus poemas. Noémia arranjou todos os subterfúgios, mas há alguns anos, depois de ter recusado convites de Manuel Ferreira, Michel Laban, entre outros, ela acedeu publicá-los.

Houve diversas iniciativas para o fazer através da Associação dos Escritores Moçambicanos, a que estiveram ligados primeiro Rui Nogar e Calane da Silva, depois Leite de Vasconcelos com Fátima Mendonça e Júlio Navarro.

Não se concretizaram estas iniciativas (tratava-se, sobretudo, de fixar o texto definitivo e obter assentimento da poeta em publicar), mas Noémia reconheceu, finalmente, que a sua modéstia não deveria constituir impedimento para a publicação do livro – o que para muitos permanecia inexplicável – e confiou-me a grata tarefa de organizar a edição do mesmo.

Na altura, Rui Knopfli – foi Noémia de Sousa quem mo apresentou, em 1989, tantas vezes confidenciei a minha admiração por ele! – ficou encarregado do prefáciou-se definitivamente deste reino sem ter escrito o texto.

Cinquenta anos depois do abandono da escrita, temos o beneplácito dos deuses e este “Sangue Negro” é finalmente editado. Noémia de Sousa não o releu, nem o corrigiu, tendo concordado que os poemas permaneceriam na versão (original) policopiada, que se encontra depositada no Arquivo Histórico de Moçambique, devendo apenas ser actualizada a respectiva ortografia.

As razões que explicam o facto de eu ser quem redige estas notas iniciais são as mesmas que explicam o facto de Fátima Mendonça ser a autora do ensaio que enquadra histórica e literariamente a poetisa e, Francisco Noa discorrer sobre alguns aspectos desta poesia. Todos nós temos uma relação de superior admiração e grande amizade e afecto com Noémia de Sousa e pertencemos ao parco clube dos que a visitam incansavelmente e nunca desistiram de insistir na edição de sua obra.

Este livro transcende a condição de uma recolha de poemas. É, antes de tudo, um testemunho da nossa História.

Neste volume ecoa uma voz, uma bela voz. Sobre esta voz ressoam outras vozes. Foi desta voz que se incendiaram outras tantas vozes. Talvez por isso qualquer apresentação seja incompetente.

Costumo dizer que Noémia de Sousa faz parte dos meus antepassados literários. Digo-o com inescondível afecto. Não há, não pode haver, um privilégio maior do que amar esta mulher a quem hoje (re) apresento e de quem tenho o privilégio de chamar “Mãe”. Não só porque ela é, como diz a lenda, a Mãe dos poetas moçambicanos, mas porque entre nós há muito que o afecto e a amizade perderam fronteiras e fundaram verdadeiros laços de família. O que permanece, estou certo, é o espanto sempre que a releio. Regresso incauto ao menino de 15 anos que, suponho, nunca deixarei de o ser.

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