segunda-feira, 3 de outubro de 2011
A mãe dos poetas moçambicanos
"Sangue Negro” de Noémia

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Viagem ao âmago da nossa identidade identidade cultural
Os puritanos consideram que se está a registar uma deturpação no uso do termo “marrabenta”, para designar qualquer forma de expressão cultural de índole moçambicana, em termos de música ligeira. Até que ponto isso é verdade?
(...) e da noite para o dia, a marrabenta – ou pelo menos o termo marrabenta – começou a ser falado e propalado em todos os cantos. Um fenómeno sem precedentes, pelo menos a nível dos últimos tempos. “Ele” é Festival da Marrabenta”; “ele” é comboio da marrabenta, “ele” é artistas unidos e empenhados em fazer deste 2010 o ano da marrabenta, enfim! agora, falar de marrabenta é o que está a dar.
Porém, a questão que se coloca é a seguinte: até que ponto toda esta empolgação em torno da marrabenta contribui para a valorização e evolução da marrabenta entanto que estilo musical com características próprias? Será correcto atribuir-se a designação genérica de marrabenta para rotular qualquer forma de expressão cultural de índole moçambicana, em termos de música ligeira?
De uma coisa ninguém duvida, a marrabenta é um ritmo de música-dança que passou por várias fases, desde a sua criação até à actualidade. A As suas origens devem remontar aos finais da década de 30, mas será a década de 50 que a leva ao sucesso, tornando-a um dos produtos mais representativos da música ligeira moçambicana.
Dizem os conhecedores que a marrabenta tem um estilo próprio, uma batida característica que é sintetizada pelo tema “Elisa Gomara Saia”, do Conjunto Djambu. Este será o ícone, a matriz e o protótipo do que é a verdadeira marrabenta. Pelo menos é assim que pensa Rui Guerra, investigador, mestrado em Gestão do Património Cultural Moçambicano, pela Slinders University (Adelaide, Austrália), com quem conversámos e em cuja tese (de licenciatura) nos baseamos em larga escala para a elaboração deste trabalho.
QUEM, QUANDO E ONDE
Há muita controvérsia em redor desse assunto: quando e onde surgiu e quem criou a marrabenta? Há quem diga – e esta versão nos parece a mais coerente – que a marrabenta deriva directamente da mescla dos estilos magika e zukuta (sim, é antigo!). Para outros, a marrabenta foi simplesmente a evolução desses ritmos, ou seja, teria começado por se chamar zukuta, depois magika e finalmente marrabenta.
Também é difícil atribuir a alguém em particular a invenção deste ritmo. De uma maneira mais generalista, pode considerar-se que ele é produto da miscigenação cultural e da migração de grupos étnicos oriundos de diversas regiões do sul de Moçambique, e que a sua estilização contribuiu para que se tornasse popular.
A transformação e penetração da marrabenta no meio urbano deve muito ao movimento migratório de jovens de origem rural e suburbana (Manhiça, Marracuene, Inhambane, Gaza) para a cidade de Lourenço Marques, onde trabalhavam à espera de contratos para as minas.
Este grupo de emigrantes é de facto importante neste processo de introdução de novos ritmos, instrumentos e aparelhos - como a viola e os gramofones -, os quais eram enviados para as suas terras de origem, juntamente com os discos, contribuindo decisivamente para a divulgação no meio rural destes novos sons e instrumentos.
INFLUÊNCIA DOS TROVADORES
Os trovadores – executantes a solo – são os precursores da música ligeira moçambicana, antes mesmo do surgimento dos agrupamentos. Músicos como Muthanda Feliciano Ngome, Francisco Mahecuane Macovela e Fani Mpfumo constituem os precursores da música ligeira moçambicana, dado terem sido os primeiros músicos a gravar, apesar de fora de Moçambique.
Mahecuane gravou, pela primeira vez, em 1945, na África do Sul, o disco “Yi Xibalo Muni Makhandane” e em 1958, no seu regresso definitivo a Lourenço Marques, torna-se famoso com o tema “Moda Xicavalo, Marrabenta, Senta Baixo”, uma das primeiras marrabentas a serem tocadas e a alcançar sucesso, apesar de apresentar uma orquestração básica, envolvendo apenas guitarra e bandolim.
Outro artista de nomeada foi, sem dúvida, Fani Mpfumo. É o caso de maior sucesso, visto ter atingido o estrelato na África do Sul, com vários prémios ganhos, para além de ser visto em Moçambique como uma verdadeira estrela, tanto pelos mineiros que traziam na bagagem os seus discos, como pela população local que ouvia os seus números na rádio.
Para além de interpretar ritmos sul-africanos como jive, simandjemandje, kwela, etc., Fani tocava marrabenta. De tal modo que o seu primeiro disco, gravado em ronga, em 1951, foi “Georgina Waka Nwamba”, tendo a música que dá o título ao álbum obtido grande sucesso. Outros números de sucesso também se seguiram, como: “Nyoxanini”, “Famba ha Hombe”, “Hodi”, “King ya Marracuene”, “Nichelelani”, entre outros.
Pela sua veia compositora, versatilidade e pelo número de discos publicados, Fani Mpfumo foi considerado o verdadeiro rei da música ligeira moçambicana, apesar de ter estado emigrado por largos anos, tendo voltado definitivamente ao país em 1973. O resto é sabido: a sua ligação à música continuou até à altura da sua morte, em 1987, vítima de doença.
AS ETAPAS POSTERIORES
O período que vai do limiar dos anos 60 até 1974 é tido como o da divulgação e promoção da marrabenta. Efectivamente, a marrabenta passa a ser dançada e ouvida por negros e brancos sem preconceitos de qualquer espécie. Passa a ser vista como a verdadeira música de Moçambique e dos moçambicanos, daí que tenha começado a ser promovida pelo empresariado local.
É nesse quadro que, em 1971, é criada a “Produções 1001”, vocacionada à procura e promoção de talentos moçambicanos. Aí são descobertos artistas hoje famosos, como Wazimbo, Simião Mazuze, Jaimito, Pedro Ben, Alexandre Mazuze, Elsa Mangue, Matchote, João Wate, Abel Tchemane, entre outros.
Surgem, então, dois programas, destinados à população suburbana e à população citadina, nomeadamente, o “Xitimela 1001”, que se realizava no Cinema Olímpia, e o “Expresso 1001” que acontecia no Cinema Nacional (actual Centro Cultural Universitário).
A REVOLUÇÃO E A MARRABENTA
Depois da Independência, a marrabenta foi, supreendentemente, desqualificada, ao ser considerada um produto da cultura burguesa decadente pelo governo revolucionário. Aí se deu o grande marco da descontinuidade. Para o bem ou para o mal, a verdadeira marrabenta foi então profundamente abalada.
Não obstante, e numa fase em que tudo escasseava e as dificuldades por que passavam os artistas eram brutais, por iniciativa do Estado, foi criado o Conjunto RM, congregando uma série de músicos, nomeadamente, José Guimarães, Alípio Cruz, Chico António, Mingas, Zeca Tcheco, Wazimbo, Matchote, Milagre Langa, Sox, José Mucavel, Alexandre Langa. Nessa fase, surgiram ainda os grupos Hokolókwè, Mbila, Alambique e Ghorwane, caracterizados pela produção de temas e músicas de caris moçambicano.
Depois disso, vieram outros e mais outros, até se chegar aos dias de hoje, onde a profusão de estilos e ritmos é abismal. São todos (?) bons. São todos representantes da música moçambicana – se por mais não seja, porque são moçambicanos – mas são raros os que tocam aquilo a que se considera marrabenta.
E porque, conforme dissemos, se passou a atribuir aos ritmos tocados a designação genérica de marrabenta, os puritanos consideram que está a registar-se uma deturpação do uso do termo, para designar qualquer forma de expressão cultural de índole moçambicana, em termos de música ligeira. Será isso correcto?
Enfim, tire o leitor as suas próprias ilações.
Os conjuntos e a estilização da marrabenta
Os conjuntos musicais e as associações culturais tiveram grande influência na difusão e, sobretudo, na estilização da marrabenta. Como já se disse, o ritmo começa a ser “urbanizado” em finais da década de 50, quando surgem os primeiros conjuntos moçambicanos, como Young Issufo Jazz Band, Orquestra Djambu, Hulla-Hoop (que passou a Conjunto João Domingos), Conjunto Harmonia e Kenguelequêze, que começam a tocar ritmos locais, para além dos internacionais, que então estavam em voga.
É a partir desse momento que a marrabenta é divulgada, deixando de ser conhecida, dançada e tocada apenas nos subúrbios. A sua entrada para as associações, neste caso a Associação Africana e o Centro Associativo dos Negros da Província de Moçambique, muito contribuiu para a sua promoção, pois deixa de estar confinada ao subúrbio. Isto é, sai do caniço e entra no cimento.
A adopção da marrabenta pelas associações foi incentivada por duas importantes figuras do meio cultural moçambicano: José Craveirinha, na Associação Africana, e Samuel Dabula Nkumbula, no Centro Associativo. Culturalmente esclarecidas e politicamente conscientes, estas figuras defendiam que os agrupamentos que ali se exibiam deviam tocar ritmos moçambicanos.
O Young Issufo Jazz Band foi o primeiro conjunto, constituído por indivíduos de raça negra. Foi formado em 1956 como um quarteto, passando para sexteto, em 1957, ano em que se viria a desmembrar, porque Young Issufo, o líder, optou por tocar num baile de finalistas, no Liceu Salazar, enquanto os outros componentes do grupo preferiram tocar no Centro Associativo dos Negros. A sua dissolução deu origem à Orquestra Djambu e ao Conjunto Hulla-Hoop, os quais se tornaram famosos a tocar marrabenta.
A Orquestra Djambu nasceu em 1958 e começou por tocar jazz e blues. A marrabenta só seria tocada mais tarde, sendo o seu tema mais emblemático “Elisa Gomara Saia”. Já o Conjunto Hulla-Hoop – que mais tarde passou a designar-se Conjunto João Domingos – foi fundado por Young Issufo, Gonzana e João Domingos, também em 1958. Entre os seus números, destacam-se: “Júlia”, “Jorgina”, “Tampa ni Xicandarinha”, “Massoriana”. Curiosamente, este grupo só viria a gravar o seu primeiro CD no ano de 2000, captado num show ao vivo, em Macau.
Ainda em 58 surgiu o Conjunto Harmonia. De acordo com Gabriel Chiau, um dos integrantes desta banda, que ainda se mantém no activo, este era o mais humilde dos três conjuntos, mas tocava de forma mais original.
Sexta, 12 Fevereiro 2010 Homero Lobo.
sábado, 17 de maio de 2008
Entrevista com Azagaia
AZAGAIA- Comecei a cantar em 1997. Antes já escrevia poesia, muito inspirado em Craveirinha. Eu nasci em Namaacha. Vim para Maputo com 10 anos e com as novas influências comecei a outros estilos de música, como Bone Thugs N´Harmony, Gabriel o Pensador, SSP, Busta Rhymes, Woo Tang, Method Man e mais tarde Boss Ac. Foi a partir daí que comecei a escrever as minhas rimas. Por volta de 1999 juntei-me ao Escudo e formámos a Dinastia Bantu, e foi mais ou menos esse o meu trajecto inicial.
2- EVENTOSMZ- O seu primeiro single foi As Mentiras da Verdade. Quais são, afinal, as verdades de Azagaia?
AZAGAIA- (Risos)...as minhas verdades...hum...é complicado. Eu fiz a música porque tinha muitas dúvidas. Notei que havia muita manipulação da informação, principalmente após a assinatura dos Acordos de Paz. E foi num papo com o Hernâni que vi que as pessoas seguem o que vêm na rádio e na tv. Foi por aí que surgiu a música, para questionar as “ditas verdades” que conhecemos: Samora Machel, Anibalzinho, Carlos Cardoso, Cahora Bassa. São todos casos mal explicados. Eu acredito que nós podemos ser um pouco mais verdadeiros uns com os outros...
3- EVENTOSMZ- Tem consciência de quão polémicas são as suas mensagens? Num país como Moçambique, não é perigoso ser tão frontal?
AZAGAIA- Ya. É assim, realmente é um risco que se tem que correr. Todas as profissões têm os seus riscos. E, naturalmente, se quisermos alcançar os nossos objectivos temos que correr esses riscos. Quanto a ser polémico ou não...bem, eu acho que a polémica é o dia-a-dia, não quando alguém diz aquilo que pensa. Quando surge alguém que diz como uma mensagem diferente é facilmente apelidado de polémico. Eu sei que é perigoso, mas acho que é mais perigoso quando quem se quer expressar está sozinho. Mas agora já começo a sentir mais calor humano à minha volta. Sinto-me mais acompanhado e seguro até, de certa forma.

4- EVENTOSMZ- Lancou o seu album recentemente, "Babalaze",porque escolheu esse nome como titulo? Como e que o album esta a ser recebido dentro e fora de Mocambique?
AZAGAIA- Babalaze significa ressaca. Surge inspirado num livro de Craveirinha, Babalaze das Hienas, que retratava o período pós guerra civil. Então peguei na palavra, Babalaze, que simboliza um momento pessoal: eu estava numa altura em que ia lançar o meu álbum a solo e quis que o título simbolizasse o meu estado de espírito. E eu procuro sempre pegar o que é nosso (moçambicano) e daí essa palavra: Babalaze e não ressaca, em português, como forma de valorizar o que é nosso. Quando falamos da receptividade do álbum, posso dizer que dentro de Moçambique está a ser muito bem recebido. No primeiro dia foram quase 700 cópias vendidas.
AZAGAIA- Actualmente o people da Cotonete Records. É um pessoal nota 10 para mim. Saindo um pouco da label, a GPRO, 100 Paus, 2 Caras, 3H, o Simba, Xitiku Ni Mbuala. Fora de Moiçambique...hum...em Portugal admiro o Valete, o Boss Ac, Sam the Kid. Nos EUA, Talib Kweli, Common Sense. E recentemente Jay Z, curiosamente. Na África do Sul, gosto de Proverbe. Fora do hip hop, curto Stewart, Kapa Dech, Wazimbo, Baka, que toca fusion e a banda Ndjango. Uma vez perguntaram-me o que era música moçambicana. Eu acho que música moçambicana é aquela que é feita com elementos da nossa terra. Senão a nível instrumental, pelo menos a nível de mensagem. Dizer o que as pessoas vivem, falando daquilo que os moçambicanos vivem e sentem. Eu faço música para o meu povo.
6- EVENTOSMZ- Sabemos que já trabalhou em parceria com rappers como a Dama do Bling ou com Valete. Como foram essas experiências? Com quem gostaria de trabalhar, no futuro?
AZAGAIA- Começando pela Dama do Bling. Eu fui muito criticado mas, desde o princípio, sempre gostei do flow dela. Ela tem uma segurança quando canta e também tem um espírito rebelde, de querer afirmar-se diferente. Ela tem uma linha própria. E sempre achei que devia ter um espírito crítico dentro dela. Quando nos encontrámos, eu sugeri que falássemos de crítica social. E decidimos falar sobre a hipocrisia das pessoas. Ela é muito talentosa e simpática. Foi positivo e acho que deu para quebrar alguns preconceitos que existem. Com o Valete foi muito mais fácil. Estamos na mesma área e fazemos o mesmo hip hop. Foi uma ideia dele fazermos a música alternativos. Falámos sobre o que é ser alternativo para cada um de nós. Conhecemo-nos pela net. Ele gravou a parte dele lá e eu a minha cá e fizemos a troca via net. Até hoje ainda não nos conhemos pessoalmente. A net dá-nos essa hipótese de encontrarmos outras pessoas que pensem como nós noutras partes do mundo. Quanto a futuras parcerias...fora do hip hop, gostava de trabalhar com o Tony Django, dos K10, que tem uma voz excepcional. A nível de hip hop nacional, acredito que acabarei fazendo música com quase todos, dada a dimensão do nosso mercado. Quem sabe um dia com a Sara Tavares e com os rappers que mencionei de Portugal . Enfim, gostaria de fazer música com os músicos que admiro.
AZAGAIA- Eu procuro inspirar-me no que eu leio. A leitura é uma base para interpretar a realidade. O que eu leio, associado ao que eu vivo...e também pelos sentimentos: o amor; as tristezas, algumas lamentações... Hoje em dia, cada vez mais me assumo como uma pessoa que quer combater esta banalização dos sentimentos das pessoas, o capitalismo selvagem, o consumismo. Já não temos tempo para bater um papo com um amigo. Vivemos num fenómeno de informatização do mundo. A falta de tempo que temos vindo a sentir é um sinal da vida que estamos a levar, nesta época de globalização. E nós, africanos, somos vítimas; somos peões nesse jogo de xadrez.
8- EVENTOSMZ- O que podemos esperar do Azagaia para 2008?
AZAGAIA- Primeiro, tenho agendados três novos vídeos. Quero também apoiar os outros artistas da Cotonete: o Islo, o Pitchó e talvez a Iveth. E começar a gravar o meu próximo cd. Quero conhecer mais gente e aproximar-me mais de outras pessoas.
9- EVENTOSMZ- Assume-se como um porta-voz da juventude moçambicana?
AZAGAIA- Na medida em que sou jovem e faço música, acho que sim. Acho que sinto e vivo o mesmo que muitos jovens também passam e sentem. O mais importante é que acho que falo de povo para povo.
10- EVENTOSMZ- Foi considerado figura do ano de 2007 e uma das cinco(5) figuras de 2007 pelo jornal Online "Canal de Mocambique" e pelo Blog "Diario de Sociologo", respectivamente. Como se sente?
AZAGAIA- Sinto-me muito lisonjeado. Eu não sei se é todos os anos que alguém tão jovem é considerado figura do ano. Penso que foi uma lição para quem pensa que a juventude moçambicana está adormecida. É gratificante sentir que há reconhecimento pelo trabalho que tenho feito.
11- EVENTOSMZ- Que mensagem gostaria de deixar para os seus fãs? E qual o seu comentário ao site http://www.eventosmz.com/?
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
João Craveirinha reage: "A Marrabenta não é nem nunca foi de Gaza"
O escritor moçambicano, João Craveirinha, reagiu às declarações de Alberto Mula, o manjacaziano, segundo as quais a marrabenta é de Chibuto. Eis a opinião de Craveirinha:
"A Marrabenta não é nem nunca foi de Gaza"... É com muita tristeza que digo: Nunca vi tanta ignorância em Moçambique sobre a cultura moçambicana como agora. Nunca digam que não existem pessoas que sabem quando vocês desconhecem algo da cultura moçambicana. E isso nada tem a ver com especialistas de coisa alguma. Mas sim de conhecimento e de vivência.
A poesia de José Craveirinha descreve a Marrabenta e o local de nascimento no seu poema “Comoreano” que toda a gente da faixa etária dos 70 anos em frente se lembra. Nem nos anos 1970 da era colonial a ignorância sobre a origem das coisas moçambicanas era tanta como agora. Tudo isto é fruto do apagão cultural implementado pela "linha correcta" que veio de Nachingweia com todos os ismos anti-rongas, anti-sena, anti-macua, anti-tetense, anti-manhambane, anti-quelimanense, e, em geral, anti-urbano contra os assimilados que viviam nas cidades moçambicanas. Isto é: a mentalidade do mato (nos seus aspectos negativos), sobrepôs-se à cidade nos aspectos positivos que pode ter (de vida em comunidade mais aberta em modernidade e civilidade). A prova está na falta de urbanidade de que enfermam as cidades de Moçambique. O Sinónimo de Desenvolvimento de um país é as cidades conquistarem o mato e não ao contrário com cobras, lixo e tudo.
Em relação à Marrabenta (nome de raiz de arrebenta do verbo em português), trata-se de um ritmo dentro do género da URBAN MUSIC nascido na Mafalala mestiça e ronga dos anos 1930 a 1940 e da fusão básica da Mâgika do Guijá e da rumba cubana (tocada no Comoreano e no Grupo Desportivo Zambeziano de tetenses, fundada por Baltazar Chagonga (por sinal fundador do único partido político moçambicano com sede no interior de Moçambique em 1960 a 1964).
Voltando à marrabenta: outros sons intervenientes foram o Zore dos manhambanes também a viverem na Mafalala na década dos anos 1930/40. Foi no Comoreano dos maDjódjos onde tocava o grande guitarrista mestiço Daíco que a fusão teria se formado. Outro interveniente foi o Chico Albasine, filho de José Albasine do proto-nacionalismo do Grémio Africano, e o Mudapana que trabalhava no John’Orr’s onde hoje está o Banco - MBCM na baixa.
Tudo isto foi dito e documentado num programa da RTK em 1999, intitulado Craveirinha Toque Show - Que Caminho para a Música Moçambique? O maior compositor da Marrabenta foi o maestro António Saúde da Mafalala e o 1º negro a ser maestro numa orquestra de brancos em
O verdadeiro pai da Marrabenta, o operário José Paixão – o Zagueta – boxeur, dançarino de sapateado e swing, mulherengo, enfermeiro, espírita e futebolista do João Albasine do Minkadjuíne, ele foi o mestre-divulgador nº 1 dos passos base da Marrabenta quer na Mafalala quer no Centro Associativo dos Negros do Xipamanine, quer na Associação Africana ex-Grémio Africano do Alto Maé dos irmãos Albasines. Outras expressões do Zagueta ficariam célebres ao dançar ( ainda o vi a dançar): Arrebenta; Maria, Executa (o passo…Maria zucuta); Quebra; Risca o chão; senta abaixo; - Zagueta era filho de um branco português e de uma negra ronga.
O poeta -mor, José Craveirinha, em 1960 reabilita a Marrabenta estudando, profundamente, suas raízes e projecta na cidade de cimento da Lourenço Marques colonial chegando ao Hotel Polana da elite branca em 1962/3 através da pintora moçambicana, Bertina Lopes, e o conjunto italiano “Os Cinco de Roma” que lá tocavam. No início dessa década a Rádio Clube de Moçambique inicia um programa “África à Noite” de Alberto Mendonça influenciado por José Craveirinha da Associação Africana.
O músico João Domingos (de Inhambane) acrescenta a versão de um músico de Xai-Xai (mestiço), que nos bailes associativos arrebentava as cordas da viola ao solar um ritmo parente da marrabenta e então um dos presentes pedia que tocasse de novo aquela música que “arrebentava” as cordas. No entanto, e sem dúvida, foi o popular Zagueta que espalharia o nome de Arrebenta e o povo do subúrbio da Mafalala diria “i maRRabenta” ya Zagueta. Tudo isto já foi escrito e dito e repetido parcialmente em imagens no projecto de vídeo de João Craveirinha filmado em 1998/99 em Maputo. VídeoJC projecto para seriado para Televisão
Mais tarde, veio o ritmo a majika, que teve como fundador Gabriel Muthemba, também de Manjacaze, também província de Gaza. Dentre os primeiros tocadores da marrabenta, que iniciou em 1949, há quem também fale de Daíco, um exímio guitarrista ainda no tempo colonial. Para Mula, “o primeiro tocador da marrabenta foi Feliciano Gomes Muntano, de Chibuto”.
Entretanto, Dilon Ndjindji ainda assume radicalmente a posição de que ele é que “pariu” este género musical em Marracuene. O maior erro é que nada está documentado sobre quem foi o fundador deste ritmo e onde ele surgiu.
Marrabenta não vai desaparecer
Os fazedores do estilo musical marrabenta vieram a público assegurar que este ritmo não irá desaparecer. Trata-se de Dilon Djindji, Alberto Mutcheca e Xidiminguana. O trio defendeu isso à margem do espectáculo inserido no Festival da Marrabenta, realizado de 1 a 3 de Fevereiro em curso na cidade de Maputo e no distrito de Marracuene. “Existem jovens que estão a segurar a marrabenta... eles é que acompanham as nossas bandas; a marrabenta não vai morrer”, consideram.
Quanto ao festival, o qual a organização garantiu que vai ser anual, o objectivo é homenagear os artistas de música marrabenta, que ao longo dos anos fizeram deste género musical a bandeira de Moçambique. A ideia é reavivar-se os grandes momentos que marcaram o período pós-independência em que este estilo musical era manifestamente o principal “cardápio” das festas.
http://www.opais.co.mz/noticias/index.php?id_noticia=5506
Maputo (Canal de Moçambique) - O palco do «Centro Cultural Franco-Moçambicano» acolhe na noite de hoje, a 1.ª Edição do Festival da Marrabenta. No festim, vão desfilar os nomes mais sonantes da marrabenta, um estilo musical muito popular no país e além-fronteiras. Os pesos-pesados do referido estilo musical serão as estrelas da noite de música, dança e calor que vai acontecer hoje no «franco-moçambicano».
Os «Galtones», Xidiminguana e Dilon Djindji são os nomes que vão encher a noite que prometer ser de rebentar. Outro nome que fará parte do já referenciado festival é o guitarrista Nanando que muito bem sabe pôr a sua guitarra a encantar com os sabores da marrabenta. Serve de referência dizer que o Festival de Marrabenta continua amanhã na Vila de Marracuene, por ocasião do «Gwaza Muthine» e no dia 3 de Fevereiro no Centro Cultural de Matalane, do artista plástico Malangatana. Dizer mais para quê, a marrabenta está no ar.
Celso Manguana) 2008-02-01 05:51:00
22/01/2008
Arranca, no dia 1 de Fevereiro, o Festival anual de Marrabenta em Moçambique, na sua campanha de 2008 uma iniciativa da empresa de produção de eventos Logaritimo, em parceria com o Centro Cultural Franco Moçambicano.
Este festival tem a duração de três dias e reúne os artistas moçambicanos da velha geração, como Alberto Mula, Alberto Mutcheca, Dilon Djinji, Xidimigwana e o projecto Rádio Marrabenta, aliás, os precursores da marrabenta.
“O Festival de Marrabenta quer que se faça a devida homenagem aos artistas de música que ao longo dos anos fizeram com que a marrabenta fosse aquilo que toda a sociedade reconhece – património cultural moçambicano.”, diz o comunicado enviado à nossa Redacção pelos organizadores do evento.
O festival de marrabenta quer que se reavivam os grandes momentos que marcaram festas, concertos e casamentos, antes e após a independência nacional. O festival de marrabenta quer juntar no mesmo palco músicos que podem contribuir para a compreensão do percurso da música popular urbana.
Fonte: Redacção Jornal O Pais.
Música popular afeiçoada pelos moçambicanos, a marrabenta aparece nos anos 50, na idade de ouro de Lourenço Marques. Nesta época, a cidade era reputada pela sua doçura de viver e pelas orquestras que animavam as noitadas da capital. A marrabenta, com o seu ritmo animado e suas melodias arrebatadoras, conta através de uma súbtil mistura, pequenos detalhes da vida quotidiana em Maputo e dos grandes eventos da história de Moçambicana.
Abaixo estao alguns comentarios sobre a marrabenta!
A danca do meu pais. Adoro dancar isto. Sinto mto orgulhosa de ser mocambicana ...
Como é bom dançar isto!Cantei e canto hoje para os meus filhos esta música!
WOW! Que maneira maravilhosa de representar a nossa cultura! E algo que me faz sentir orgulhoso de ser um mocambicano! Viva a cultura mocambicana e a mocambicanidade!
em tempos dancei ..
Bonita Historia de Mocambique !









