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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

As incongruências do Mahel

1. Não consigo arranjar um qualificativo capaz de descrever melhor o comportamento negativo que o cantor moçambicano Ivo Mahel tem vindo a demonstrar nos últimos tempos. Mahel é um artista que poucos são os que saberão indicar quaisquer defeitos no seu trabalho artístico. Aliás, eu pessoalmente faço parte do grupo dos que não têm dúvidas de que falar de Mahel é o mesmo que se referir a um artista com créditos firmados no panorama musical moçambicano, graças à alta qualidade das suas composições, assim como ao facto de ser hábil na execução vocal.Com efeito, entre a arte que desenvolve e o discurso com que o artista defende o seu trabalho vai aí uma grande distância.

Eu cá por mim, devo confessar, tenho andado a preferir mais ouvir as suas músicas do que ouvir o Mahel a falar das suas próprias músicas, pois quando fala parece mentir com a mesma habilidade com que canta. Em entrevista ao semanário Magazine Independente, conduzida pelo jornalista Azael Moiana, há sensivelmente seis meses, Mahel não fez outra coisa senão mentir, contar histórias falsas. Mas a verdade, já dizia o procurador nos seus tempos de juiz, a verdade é como o caju, não tarda muito para que ela amadureça e caia por si própria. É que, para sermos sinceros, não são todos os dias que um artista consegue uma página inteira num jornal, para falar de si e dos seus projectos.

Mahel usou mal a oportunidade que lhe foi concedida. Aliás, tem estado a fazer um mau uso do espaço público que lhe tem sido dado pelos órgãos de comunicação social.Entre o que o músico disse ao Magazine Independente há sensivelmente seis meses e o que andou a dizer nas últimas semanas à Televisão Independente de Moçambique, quando entrevistado por Sérgio Faife no programa “Na Primeira Pessoa”, vai uma enorme distância. Na verdade, não sei mais em qual das suas declarações devo acreditar, se naquelas antigas ou então nestas últimas.

Na entrevista ao Magazine, Mahel já nos tinha avisado sobre o efeito das suas próprias mentiras. Quando o jornalista perguntou sobre aquela famosa notícia segundo a qual Mahel ia posar nu para uma revista Play Boy, o músico respondeu que na verdade tratou-se de uma invenção sua, um golpe de marketing que nas suas palavras funcionou muito bem na altura pois elevou ainda mais a sua carreira. Como dar crédito a uma pessoa que volta e meia vem-nos dizer que a notícia que nos fez divulgar não passa de uma pura invenção, de uma pura mentira?

Mesmo assim, o jornalista parece não ter duvidado do que Mahel continuaria a dizer depois de ter dito que da outra vez mentiu, tendo prosseguido com a entrevista, insensível do golpe de marketing que poderia estar na mesma a sofrer e que de novo os leitores sofreriam.

Mahel deve saber que está a lidar com jornalistas, profissionais de comunicação social e tentar no máximo evitar justificativas dessas, pois o marketing com que tanto se defende não se faz com mentiras tão feias quanto essas. Aliás, não se percebe muito bem por que razão uma mentira tão feia quanto essa – de querer posar nu para uma revista Play Boy – iria elevar ainda mais o seu ego artístico. O que mais me intriga é que o artista mente com um discurso tão polido que até passa despercebido aos menos avisados.

Questionado sobre os seus projectos do futuro, Mahel manifestou a sua insatisfação com Moçambique, tendo afirmado que estava de malas aviadas para a Inglaterra onde seguirá sua carreira musical. A pergunta que o jornalista já não fez, e que se calhar era suposto que a fizesse (me perdoa o Azael), era se essa pretensão de Mahel de deixar o país para viver na Inglaterra não seria mais um golpe de marketing à americana que o artista estaria a dar mais uma vez para granjear simpatias junto dos seus. (O Marconi Ferraço, o da telenovela da noite, diz categoricamente que há tolos que ficam à espera de ser enganados e que alguém tem que prestar-lhes esse favor). Mahel anda aqui a mentir. A entreter-nos. Aliás, nas suas últimas entrevistas – como há poucas semanas a Sérgio Faife – Mahel já não fala mais da sua pretensão de deixar o país para ir viver na Inglaterra ou eu sei lá que outro país. Sérgio Faife, se calhar por não ser propriamente um jornalista mas sim um animador televisivo e “promotor de estrelas”, não fez uma entrevista que visava saber a verdade, por isso não chegou a se dar ao trabalho de perguntar ao nosso artista das mentiras se continuava com aquela sua ideia de abandonar o país.

Mas mesmo não tendo sido perguntado, se continuava a ser sua pretensão abandonar o país, Mahel devia ter dito a plenos pulmões, como fez ao Magazine Independente. Muito pelo contrário, o nosso artista falou de outros objectivos, outros sonhos. Na entrevista com o Faife, falou do “bom trabalho” que tem vindo a ser feito pela mCel, empresa de telefonia móvel da qual até muito bem pouco tempo era um crítico assumido. Mahel agora elogiou o facto da empresa celebrar contratos com artistas como Lizha James e Stewart Sukuma, como quem em muito pouco tempo voltou a morrer de amores pela Pátria desamada. Mahel já não fala mais de partir para lugares além mar. (“Ampla e aberta é a porta do mar” – Mia Couto, in “Raízes de Orvalho”). Aliás, Mahel manifesta agora a sua vontade de também poder ser contratado pela mCel, ele e outros artistas. Pelo que, ao que tudo indica, ouvir Mahel ainda vai doer.

2. A outra parte do discurso de Mahel que nos deixa com a boca aberta, tem a ver com o facto de se declarar um artista realista, justificando-se, pois, pelas suas músicas que alegadamente abordam coisas reais da sua vida e da sociedade. Não acredito muito que a verdade poética se manifesta pela exposição plena da sua vida íntima e privada para o consumo da sociedade. Realismo não é bem isso. Os problemas que Mahel teve com a sua ex-consorte – a ponto de cantar que “filho que é meu não é meu” – dizem respeito à sua vida privada, íntima, a nós não nos interessa para nada, tanto mais que se tiverem que ser discutidos em tribunal, vai ser à porta fechada. Pertence à privacidade familiar. Por outro lado, tanto o seu filho, quanto a sua ex-consorte, não têm direito de ver as suas vidas íntimas e privadas expostas publicamente como acontece no seu discurso e na poesia das suas músicas. (Outro dia, o MC Roger, homem de marketing por excelência, disse aqui uma coisa interessante: “A minha esposa não precisa de ser exposta apenas porque eu sou uma figura pública, pois ela tem a sua própria privacidade”. Uma lição interessante esta!).

Ser um artista realista, tal como Mahel diz que é, não é falar, falar e falar sem ter em conta que onde termina a liberdade de um começa a liberdade de outro. Isto porque, se bem analisadas as coisas, Mahel poderá estar a atentar contra a privacidade dos seus.

3. Mais não disse.

In Jornal Savana, Escrito por Armando Nenane

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segunda-feira, 1 de junho de 2009

“O agenciamento de artistas não precisa de regulamentação”, defende o produtor Bang



Músicos agenciados em terra selvagem    
    
“O agenciamento de artistas não precisa de regulamentação”, defende o produtor Bang
- depois de perder Dama do Bling e Valdomiro José, Bang Entretenimento aposta nos sul-africanos Mandoza e Loyiso
 
É característica própria da pequena indústria musical moçambicana que os seus principais fazedores – mais concretamente os músicos – iniciem as suas carreiras profissionais negligenciando questões relacionadas com o facto de se tratar de um sector comercial que tende a ser cada vez mais agressivo e que envolve contratos que exigem uma postura firme para que se possam evitar futuras frustrações. 


Moçambique entrou na era do agenciamento de artistas com o surgimento de pequenas empresas vocacionadas nessa actividade e os últimos anos têm sido decisivos no alerta para a mudança de mentalidades por parte dos artistas que decidem enveredar pela via do agenciamento. A generalidade dos músicos – sejam iniciantes ou não – não tem dinheiro para investir nas suas carreiras a fim de terem a devida visibilidade, mas ganham a consciência de que por mais talento que possam ter, não basta, pois são necessários altos investimentos para que se consiga sobreviver num mercado cada vez mais selvagem. Inicialmente vocacionadas na produção de espectáculos musicais, algumas pequenas empresas como a Bang Entretenimento, DXS Label, Laggost Label, Cotonete Records, Track Records, Big Brother Entertainment, Celebrity e outras do género agora também ganham algum dinheiro agenciando os músicos com os quais negoceiam as suas propostas, oferecendo ganhos e cobrando dividendos. Fazem-no através de contratos que têm sido mais ou menos assim: em troca do investimento que fazem na carreira dos músicos, produzindo sua música, seus vídeo-clips e sua imagem, os músicos comprometem-se a dar aos seus agenciadores as percentagens previamente combinadas que forem a resultar de todas as suas participações. Bang, produtor e boss da Bang Entretenimento, explicou-nos que a sua empresa ganha com as percentagens que forem fixadas nos contratos, pois as mesmas passam a ser retiradas dos rendimentos que os músicos tiverem durante o tempo que vigorar o contrato, sejam eles rendimentos provenientes dos cashés ou de outros contratos com empresas que se interessem pelo trabalho do artista. 

Artistas burlados
No negócio do agenciamento – ainda sem um regime jurídico especial que o regule – os músicos, sobretudo os iniciantes, parecem o elo mais fraco, pois geralmente descobrem tarde que se envolveram em maus negócios e decidem abandonar os contratos depois de terem perdido muito dinheiro, grande parte do qual vai directamente para os bolsos do agenciador que já conhece melhor as dinâmicas do mercado. Hoje se pergunta se não terá sido esse o caso da cantora Neyma, ela que se afastou da DXS Label um pouco depois de descobrir que afinal de contas a sua relação de trabalho com o produtor não era das melhores.

Embora Bang afirme, em entrevista ao SAVANA, que os contratos celebrados com os músicos com os quais trabalha sempre foram “claros” e “honestos”, há casos de empresas ou de pessoas que tendem a manchar o bom nome que as “labels” conquistaram nos últimos anos ao se fazerem passar por agências sérias, quando na verdade roubam aos mais fracos. 

O caso do Hermínio foi um dos mais falados, quando este apareceu a denunciar o fim do seu contrato com a Laggost Produções alegadamente porque teria sido defraudado em mais de 200 mil meticais em cashés e na venda do seu disco à Vidisco, tendo prometido levar a questão ao tribunal. “A partir de agora vou seguir uma carreira a solo”, disse Hermínio a este jornal, quando abandonou a Laggost Produções em 2008. 

Matérias que alimentam a imprensa cor de rosa – "Atracções" e Fred Jossias com os seus “beafs” –, os problemas de relacionamento entre essas novas agências de músicos e os músicos mexem com o tecido ético e moral da sociedade, contribuindo para a degradação dos valores culturais moçambicanos, sobretudo, quando os músicos trocam insultos, ameaçam-se porrada e tribunais, usando os órgãos de comunicação social como armas de arremeço.

“Está bom como está”, Bang
Para Bang, o sector do agenciamento de artistas não carece de nenhuma regulamentação, pois “está bom como está”. Apesar das “guerras” que amiúde têm-se levantado entre músicos e agenciadores, assim como entre algumas agências entre si na disputa dos poucos patrocínios que há, Bang considera que o agenciamento de artistas ainda é um negócio muito novo em Moçambique, daí que acha que deve continuar assim como está. “Eu comecei a cantar numa altura em que nós investiamos nas nossas carreiras pessoalmente, mas hoje já não, hoje os artistas têm quem invista neles e isso é positivo”, considerou.

O caso Dama do Bling e Valdomiro José
No mercado há sensivelmente cinco anos, a Bang Entretenimento, segundo o respectivo boss, é responsável pelo agenciamento de artistas como Lizha James, Danny OG, Da Most, Doppaz, mas também já passaram pela organização nomes sonantes como Dama do Bling, Valdomiro José, Marlene e Yara, cujas saídas alimentaram polémicas a vários níveis. 

Vários órgãos de comunicação social trataram as saídas de alguns destes artistas da Bang Entretenimento como tendo- se tratado de baixas que terão sido originadas por questões ligadas com a divisão dos rendimentos, mas Bang desdramatiza a questão referindo que a saída daqueles artistas foi pacífica. Mesmo em relação a especulações segundo as quais o que terá precipitado o abandono da cantora Dama do Bling da organização terá sido o alegado facto de não se perceber muito bem a linha divisória entre a sua relação matrimonial e a sua relação profissional com a cantora Lizha James – beneficiando-a em detrimento de outros membros –, Bang negou que tenha havido desigualdade de tratamento. 

A verdade, segundo ele, é que tudo tem a ver com questões relacionadas com o momento, pois “houve o momento em que quem estava em cima era a Dama do Bling, mas também houve momentos em que quem estava a bater era o Zico ou o Doppaz e quando passou a ser a vez da Lizha James, pessoas de má fé também passaram a dizer que é por causa da nossa relação como marido e mulher. Essa gente nem sequer presta a atenção para o facto de que a Lizha é uma cantora excepcional e que começou a sua carreira muito cedo”.

A questão relacionda com a lógica dos contratos também é muito determinante para que num dado momento apareça um músico a ser mais promovido e não outro, segundo explicou o produtor. O que acontece é que às vezes a Bang celebra contratos em que o músico aceita dar uma percentagem maior que a dos outros e o mais sensato para quem está a fazer negócio será investir no músico que oferecerá maior percentagem dos seus proveitos. “Entre um que oferece 40 e outro que oferece 60 por cento, é claro que investirei no que oferece 60”, elucidou.

Insistiu que não houve nenhum problema com Dama do Bling, Valdomiro José e Marlene. Reconheceu que de facto tinha contratos com eles, mas a rescisão foi amigável em todos os casos. No caso da Dama do Bling, Bang contou que a relação começou logo quando se criou a “fábrica de beats” e a relação sempre foi mais de amizade do que profissional. “Começámos enquanto a Dama do Bling não era cantora, senão uma excepcional produtora. Depois ela começou a cantar, mas sempre deixou claro para todos que ela não se considera uma cantora, mas sim uma artista.

Sempre sonhou em ser estilista e é o que hoje está a fazer e ainda vai ser a melhor estilista deste país. Sempre manifestou grandes ambições de um dia poder caminhar sozinha e quando esse dia chegou ela veio ter comigo e disse que era a hora. É óbvio que isso gerou muita especulação”, referiu. Quanto à coincidência nas saídas, Bang referiu que foi uma coincidência normal e que Valdomiro José e Marlene continuam a ser seus grandes amigos. 

Acrescentou que Marlene quando se alistou na turma da Bang Entretenimento já tinha um produtor que investia mais dinheiro nela, que era a Celebrity, tendo sido com esta label que preferiu ficar.

Bang mostrou reservas em falar dos seus ganhos assim como dos ganhos dos músicos nos contratos celebrados. Para além de que o segredo é a alma do negócio, Bang defende que aspectos relacionados com os ganhos obtidos nos contratos não são para serem divulgados porque todos têm o direito à reserva da sua intimidade e da sua vida privada e isso aplica-se até mesmo aos artistas, apesar da visibilidade que a profissão obriga. 

Fonte: Savana.

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